Este é um blog de sonhos. Os textos aqui publicados fazem parte do universo imaginário de LL. No entanto, apesar de serem criados no imaginário, quantos deles não nascem na realidade? *
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Eu era furacão, tu brisa.
Eu era furacão, tu brisa. Pelo menos era assim que nos descreviam os nossos amigos. Tu a calma apaziguadora, eu a guerra constante. Em guerra comigo, em guerra com os outros, em guerra com o mundo. Hoje pergunto-me se sentirás saudades das batalhas travadas, ou se simplesmente te sentes melhor desde que encontraste a paz. Eu desligada, tu atento. Eu uma sonhadora, tu realista. E era tão diferente tudo o que nos rodeava que as pessoas tinham dificuldade em compreender o que nos unia. Mas é tão fácil de compreender a quem o vive... O que nos unia era amor. Não aquele amor arrebatador que vem do nada e consome tudo, não era desse amor que se tratava. Era o amor construído aos poucos, em bases sólidas, o amor cuidado, como tu gostavas de lhe chamar. O nosso amor era como uma flor que juntos fomos regando, tirando as ervas daninhas, deixando crescer e florescer. E o tanto que eu gosto de flores! Será que ainda te lembras disso? Às vezes pergunto-me se te lembrarás de mim quando vês uma tulipa a florescer num vaso. Dizias que era a mulher mais simples que alguma vez havias conhecido, que o meu rosto brilhava sempre que me oferecias uma flor e que gostavas de estar comigo sentados na margem do rio, mesmo que eu nada dissesse, porque jamais te cansavas de mim. Mas de repente eu levantava-me e exclamava vamos dar um mergulho! e tu incrédulo respondias L, é de noite, está frio e não temos roupa seca para vestir, não quero que te constipes! e eu enternecida com as tuas palavras dava-te um beijo na testa e corria para o rio dizendo eu vou, ficas? e tu sorrindo levantavas-te para vir ao meu encontro, dizendo que não acreditavas que houvesse no mundo alguém que fosse uma maior caixa de surpresas do que eu mesma. Eu também não acreditava que houvesse alguém que melhor soubesse cuidar de mim do que tu. Só tu sabias as fragilidades que mantinha escondidas debaixo desta máscara de mulher furacão. Sabias que mais ninguém me conhecia como tu e que se te perdesse viveria para sempre a fachada da mulher pedra. Será que não te lembras disso agora? Será que não pensas em como me sentirei sem ti para cuidar de mim? Gostava que sentisses saudades minhas, da L que sou, saudades até da minha loucura. Eu tenho saudades tuas. Saudades do teu abraço, das tuas palavras, vai tudo ficar bem L, eu estou aqui.. Mas tudo mudou, de ti nada sei. Não sei se estás bem, se és feliz, se seguiste a tua vida. Sei apenas que nunca ninguém me disse que perguntaste por mim, nunca ninguém me disse que esperavas que estivesse tudo bem comigo. Também ninguém me disse que havias encontrado alguém e eu mantenho a esperança de que ainda não tenhas conseguido amar alguém depois de mim. Repetias vezes sem conta que tinha sido comigo que havias conhecido o amor. Mas hoje eu sei que foi também comigo que sentiste o que era viver uma desilusão. Foi a mesma loucura que te fez apaixonar por mim que te levou a desistir deste amor. Hoje compreendo, sei que não é fácil amar-me. Depois de ti muitos se apaixonaram, mas nenhum foi capaz de me amar. O amor conheci-o contigo, a teu lado. Conheci-o quando dávamos as mãos e de repente eu soltava a minha mão da tua e gritava não me apanhas! enquanto corria... Mas um dia soltamos as mãos e eu não corri, fiquei perplexa a olhar para ti enquanto lágrimas escorriam dos teus olhos. Desta vez foste tu quem correu, pedindo que não te tentasse alcançar. Até hoje de ti nada sei a não ser a certeza de que foste capaz de correr sem travar nenhuma batalha. Eu batalhei muito, batalhei contra mim mesma e até contra a minha própria loucura. Quem sabe um dia não voltemos a dar as mãos, nem que seja uma última vez, para que eu te possa dizer que nunca ninguém foi capaz de segurar a minha mão de forma tão firme! Talvez porque nunca ninguém foi capaz de compreender a minha loucura...
terça-feira, 28 de maio de 2013
Um homem
Lá fora chovia. L, encostada ao vidro do café, via as pessoas correrem apressadas, com vidas cheias e assuntos pendentes. L mantinha-se ali, como se na sua vida nada estivesse por fazer, como se não houvesse ninguém à sua espera, como se não houvesse algures alguém com quem ir ter. Bebia um copo de café americano quente, era a sua tentativa de aquecer um pouco o coração. Como num passo de magia, alguém se aproxima.
(...)
Não foi assim que nenhum dos dois imaginou o dia do seu reencontro. Esperava-se um forte bater do coração, um friozinho na barriga, borboletas no estômago. Mas nada disso aconteceu. Foram namorados nos seus áureos tempos do secundário e havia sido a primeira grande e arrebatadora paixão das suas vidas. Acabou inesperadamente e cada um havia seguido o seu caminho, três anos depois ali estavam eles, numa mesa de um café perdido no centro da cidade onde outrora percorreram as ruas de mãos dadas e corações entrelaçados.
- E as coisas contigo, está tudo bem? - Perguntava J enquanto colocava o açúcar no chá que havia pedido.
- Acho que foi por isso que não deu certo. - Disse L concentrando o olhar no seu copo de café americano.
- Não percebi, apenas te perguntei como estavas L... - Disse J confuso quanto à afirmação proferida por L.
- Não é isso, é o chá. - Respondeu L.
- O chá? - Perguntou J ainda mais confuso.
- Desejei tantas vezes que fosses um homem de café e não de chá. Um homem de cerveja gelada e não de água natural. Um homem, apenas isso.
Houve um constrangedor momento de silêncio e numa tentativa de fugir às cruas palavras de L, J disse:
- E o que fazes tu aqui sozinha? - J evitava beber o chá que havia pedido.
- Cansei-me de chorar sozinha e vim chorar para o meio da multidão. - Afirmou L com voz cansada e olhar perdido.
- O que se passa L? - Perguntou J preocupado.
- Uma relação falhada J. - Disse L envergonhada.
- Falhada porquê? - J estava curioso quanto ao que ouvia.
- Traição... - Uma lágrima escorreu do olhar de L que fixava a mesa.
- Não precisas de falar, mas se quiseres desabafar não estás sozinha, eu estou aqui. - Disse J tentando aliviar um pouco a dor que sabia que L estava a sentir.
- Obrigada...- Disse L não conseguindo deixar de se sentir completamente perdida.
- Não agradeças, só acho que devias saber que é isso que acontece quando se procura muito mais café e muito menos chá.
L olhou novamente pelo vidro molhado que a separava da multidão que corria apressada por entre as gotas de chuva. E pensou no quanto gostava de se ter apaixonado pelo jeito de chás de um senhor como J e não por um homem de cervejas geladas como R. Mas a verdade é só uma, não era de um senhor que L precisava, mas sim de um homem.
quarta-feira, 20 de março de 2013
A conversa
Entrei distraidamente no café da minha rua, doía-me a cabeça da noite anterior, tinha bebido mais do que seria capaz de suportar. Lá fora chovia e o dia frio e escuro deixava-me com uma expressão demasiado apagada. Sentei-me numa mesa logo à entrada, pedi um café curto e comecei o ler o meu signo da semana na revista que trazia comigo. Subitamente oiço alguém dizer o meu nome e levanto a cabeça, reconhecera a voz, mas precisava de ver para conseguir acreditar.
-T! - Exclamei surpresa.
-Como estás?
-Bem e tu?
-Também. Estás sozinha? Posso sentar-me?
-Sim, senta-te.
T pediu um café e uma garrafa de água.
-Estás diferente L, mais bonita, o que eu não acharia possível.
-T, por favor, queres mesmo que acredite nisso?
-Porque não?
-Olha para mim, estou com uma camisola que roubei ao meu pai, com o cabelo apanhado e sem maquilhagem que disfarce as horas de sono a menos.
-Vistas o que vestires, com ou sem maquilhagem, serás sempre uma mulher bonita.
-Obrigada T...
Houve uns longos minutos de um constrangedor silêncio, até que T ganhou coragem para falar.
-Se te convidasse para jantar, aceitarias?
-As coisas mudaram durante este tempo em que não falamos... Eu namoro, não posso aceitar, mas obrigada.
-Namoras? - Perguntou T em tom de incredulidade.
-Sim. Porquê tanta admiração?
-Não acreditaria se não o tivesse ouvido de ti. Conheço-te bem de mais para saber que ontem bebeste uns copos a mais, hoje acordaste com dores de cabeça e vestiste a camisola do teu pai para não teres que combinar nada com nada. A tua vida não mudou muito para quem assumiu um compromisso.
-Eu disse que namoro, não disse que tinha deixado de ter vida social.
-Eu sei, mas será preciso dizer-te novamente que te conheço tão bem que sei que apenas bebes quando a tua vida está demasiado solitária? Quando te cansas do que te rodeia e...
-Não é bem assim! - Interrompi - Talvez não me conheças assim tão bem.
-Conheço sim. Sei também que gostaste muito de mim, mesmo que nunca o tenhas admitido. Mas isso eu percebi demasiado tarde.
-Quem te disse isso enganou-te T.
-Há coisas que não precisam de ser ditas L. Repensa o meu convite para jantar.
-Já te disse, eu tenho namorado.
-Eu sei, eu estou a dizer que podes ter muito mais que isso. Podes ter alguém que seja o suficiente para que deixes de ter estes dias em que achas que vestir a camisola do teu pai e vir sozinha para o café da tua rua basta, porque não basta, muito menos para uma mulher como tu.
-Eu acho que o que basta é desta conversa, tenho que ir.
-L, nem tu acreditas nesse namoro, eu vejo isso nos teus olhos.
Levantei-me, peguei na revista que havia deixado aberta na página dos signos e disse:
-Então devias conseguir ver também que não acredito em ti. Prefiro o meu namoro de Sábado à noite do que as tuas conversas ilusórias de toda a semana.
-T! - Exclamei surpresa.
-Como estás?
-Bem e tu?
-Também. Estás sozinha? Posso sentar-me?
-Sim, senta-te.
T pediu um café e uma garrafa de água.
-Estás diferente L, mais bonita, o que eu não acharia possível.
-T, por favor, queres mesmo que acredite nisso?
-Porque não?
-Olha para mim, estou com uma camisola que roubei ao meu pai, com o cabelo apanhado e sem maquilhagem que disfarce as horas de sono a menos.
-Vistas o que vestires, com ou sem maquilhagem, serás sempre uma mulher bonita.
-Obrigada T...
Houve uns longos minutos de um constrangedor silêncio, até que T ganhou coragem para falar.
-Se te convidasse para jantar, aceitarias?
-As coisas mudaram durante este tempo em que não falamos... Eu namoro, não posso aceitar, mas obrigada.
-Namoras? - Perguntou T em tom de incredulidade.
-Sim. Porquê tanta admiração?
-Não acreditaria se não o tivesse ouvido de ti. Conheço-te bem de mais para saber que ontem bebeste uns copos a mais, hoje acordaste com dores de cabeça e vestiste a camisola do teu pai para não teres que combinar nada com nada. A tua vida não mudou muito para quem assumiu um compromisso.
-Eu disse que namoro, não disse que tinha deixado de ter vida social.
-Eu sei, mas será preciso dizer-te novamente que te conheço tão bem que sei que apenas bebes quando a tua vida está demasiado solitária? Quando te cansas do que te rodeia e...
-Não é bem assim! - Interrompi - Talvez não me conheças assim tão bem.
-Conheço sim. Sei também que gostaste muito de mim, mesmo que nunca o tenhas admitido. Mas isso eu percebi demasiado tarde.
-Quem te disse isso enganou-te T.
-Há coisas que não precisam de ser ditas L. Repensa o meu convite para jantar.
-Já te disse, eu tenho namorado.
-Eu sei, eu estou a dizer que podes ter muito mais que isso. Podes ter alguém que seja o suficiente para que deixes de ter estes dias em que achas que vestir a camisola do teu pai e vir sozinha para o café da tua rua basta, porque não basta, muito menos para uma mulher como tu.
-Eu acho que o que basta é desta conversa, tenho que ir.
-L, nem tu acreditas nesse namoro, eu vejo isso nos teus olhos.
Levantei-me, peguei na revista que havia deixado aberta na página dos signos e disse:
-Então devias conseguir ver também que não acredito em ti. Prefiro o meu namoro de Sábado à noite do que as tuas conversas ilusórias de toda a semana.
quarta-feira, 6 de março de 2013
Nós, mulheres.
Li recentemente um estudo cientifico que comprovava que nós mulheres temos uma grande capacidade para fazer várias coisas ao mesmo tempo. Depois de uns longos minutos debruçada sobre o mesmo cheguei a uma conclusão que adivinho ser a chave para as questões que atormentam a minha cabeça: Se nós mulheres temos essa dita capacidade para fazer várias coisas ao mesmo tempo, não será então normal que haja mulheres que conseguem gostar de vários homens ao mesmo tempo? É o primeiro namorado, porque todas nós sabemos que não há amor como o primeiro, é o ex-namorado porque quando o namoro acaba ficamos com uma estúpida sensação de que era o homem das nossas vidas, e é o actual que nos vai preenchendo o tempo e o vazio do coração... e ainda há aquele vizinho que joga ténis com quem apenas nos cruzamos no elevador e nunca trocamos mais do que um simpático bom dia, mas ficamos sem jeito de cada vez que o vemos. Numa hora conseguimos pensar em todos eles, agrupá-los, classificá-los e ainda falar deles com as amigas. Falamos em aquele que é o amor da minha vida, em o meu primeiro amor, em o tal que me deixa sem jeito e depois um pouco mais à frente na conversa referimos o meu namorado. É aquilo a que se chamaria um coração e uma mente demasiado ocupados. Em conversa com as amigas diriam: Eu só gosto do meu X, vamos casar e sei que seremos muito felizes. Mas, quando a primeira confessasse que não esqueceu o ex-namorado, choveriam confissões de outros amores. Talvez não devam ser considerados amores, mas nós mulheres chamamos-lhe assim. Talvez porque queremos que entendam que estamos a pensar com o coração, e que deixaremos essas histórias por lá. E deixamos mesmo, provando que não fazemos uso da nossa tão conhecida capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo.
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Agora que foste embora.
Ali estavam eles, na esplanada a que outrora chamaram o sítio do costume, à hora que em tempos apelidaram de a mesma de sempre, mas desta vez por razões nunca antes mencionadas.
-Obrigada por teres vindo J.
-Não devia estar aqui M.
-Eu sei que é complicado perceber a atitude que eu tomei e...
-Não me digas que depois de me teres deixado um ano em vão à espera de qualquer notícia tua me decidiste pedir dez minutos de fama para te justificares!
-Não é bem isso, eu fui clara na altura, e gostava de ter bem mais do que dez minutos.
-Esperei um ano por este dia, acho que posso esperar meia hora...
-Sem ironias, só te queria pedir desculpa.
-Não, espera, repete por favor. Tu pedir-me desculpa a mim?
-Sim, desculpa ter-te magoado.
-A que devo esse pedido de desculpas mais atrasado do que correspondência em tempos de guerra?
-Eu percebi que não posso magoar as pessoas, percebi que não posso passar por cima de ninguém e...
-M, por favor, se decidires lançar-te em pedidos de desculpa retardados a todos os homens que magoaste na vida acho que podes fazer disso profissão a tempo inteiro!
-Pára! Não percebes que mudei? Não vou entrar nesse jogo de sarcasmo.
-Tu mudaste e eu também, por isso mesmo não esperes que aceite esse pedido de desculpa.
-Tudo bem, eu compreendo, só achei que deveria fazê-lo.
-Achaste bem, mas tenta com todos os outros otários que manipulaste, não vai funcionar comigo.
-Estás a ser cruel! Eu não manipulei ninguém, eu nunca te prometi nada! E peço-te que não me fales assim, porque eu também tenho sentimentos.
-Deve ter acontecido um milagre lá pela tua rua para alguém ter conseguido despertar sentimentos dentro de ti.
-Bem, acho que já disse tudo o que queria.
-Magoaram-te, não magoaram M? Magoaram-te e muito. Mais tarde ou mais cedo acabaria por acontecer, tu própria sempre soubeste como acabam as pessoas como tu.
-Sozinhas.
-Não, magoam a vida toda até se apaixonarem por alguém que normalmente é pior do que elas. Quando finalmente estavas disposta a fazer as coisas bem provaste do teu próprio veneno.
-A conversa acabou, posso ter provado do meu próprio veneno mas não faço questão de provar do teu.
M levantou-se, virou costas e foi-se embora. J fechou os punhos, num ataque de fúria contra si próprio que tentava a todo custo controlar. Esperou um ano por aquele dia, tinha pensado em mil coisas que lhe queria dizer, em mil formas de a fazer perceber que não houve um dia em que não tivesse pensado nela. Mas a mágoa acumulada durante todo esse tempo falara mais alto. Levantou-se, atirou com uma moeda para cima da mesa e correu pelo mesmo caminho que a vira partir na ânsia de a encontrar algures numa rua daquela cidade para finalmente lhe poder dizer eu desculpo-te, porque te amo mais do que alguma vez serei capaz de te odiar. Mas, tal como o ano que passara à espera daquele dia, a busca foi em vão, nem sinal da presença de M.
Exausto e desanimado sentou-se nas pedras da calçada e desejou, do fundo do coração, que a dor que M trazia no coração aliviasse e que ela não passasse por tudo o que um dia o fizera passar a ele.
Afinal, quem disse que está tudo no sítio certo?
-Obrigada por teres vindo J.
-Não devia estar aqui M.
-Eu sei que é complicado perceber a atitude que eu tomei e...
-Não me digas que depois de me teres deixado um ano em vão à espera de qualquer notícia tua me decidiste pedir dez minutos de fama para te justificares!
-Não é bem isso, eu fui clara na altura, e gostava de ter bem mais do que dez minutos.
-Esperei um ano por este dia, acho que posso esperar meia hora...
-Sem ironias, só te queria pedir desculpa.
-Não, espera, repete por favor. Tu pedir-me desculpa a mim?
-Sim, desculpa ter-te magoado.
-A que devo esse pedido de desculpas mais atrasado do que correspondência em tempos de guerra?
-Eu percebi que não posso magoar as pessoas, percebi que não posso passar por cima de ninguém e...
-M, por favor, se decidires lançar-te em pedidos de desculpa retardados a todos os homens que magoaste na vida acho que podes fazer disso profissão a tempo inteiro!
-Pára! Não percebes que mudei? Não vou entrar nesse jogo de sarcasmo.
-Tu mudaste e eu também, por isso mesmo não esperes que aceite esse pedido de desculpa.
-Tudo bem, eu compreendo, só achei que deveria fazê-lo.
-Achaste bem, mas tenta com todos os outros otários que manipulaste, não vai funcionar comigo.
-Estás a ser cruel! Eu não manipulei ninguém, eu nunca te prometi nada! E peço-te que não me fales assim, porque eu também tenho sentimentos.
-Deve ter acontecido um milagre lá pela tua rua para alguém ter conseguido despertar sentimentos dentro de ti.
-Bem, acho que já disse tudo o que queria.
-Magoaram-te, não magoaram M? Magoaram-te e muito. Mais tarde ou mais cedo acabaria por acontecer, tu própria sempre soubeste como acabam as pessoas como tu.
-Sozinhas.
-Não, magoam a vida toda até se apaixonarem por alguém que normalmente é pior do que elas. Quando finalmente estavas disposta a fazer as coisas bem provaste do teu próprio veneno.
-A conversa acabou, posso ter provado do meu próprio veneno mas não faço questão de provar do teu.
M levantou-se, virou costas e foi-se embora. J fechou os punhos, num ataque de fúria contra si próprio que tentava a todo custo controlar. Esperou um ano por aquele dia, tinha pensado em mil coisas que lhe queria dizer, em mil formas de a fazer perceber que não houve um dia em que não tivesse pensado nela. Mas a mágoa acumulada durante todo esse tempo falara mais alto. Levantou-se, atirou com uma moeda para cima da mesa e correu pelo mesmo caminho que a vira partir na ânsia de a encontrar algures numa rua daquela cidade para finalmente lhe poder dizer eu desculpo-te, porque te amo mais do que alguma vez serei capaz de te odiar. Mas, tal como o ano que passara à espera daquele dia, a busca foi em vão, nem sinal da presença de M.
Exausto e desanimado sentou-se nas pedras da calçada e desejou, do fundo do coração, que a dor que M trazia no coração aliviasse e que ela não passasse por tudo o que um dia o fizera passar a ele.
Afinal, quem disse que está tudo no sítio certo?
domingo, 6 de janeiro de 2013
«Quem nasce jacaré jamais chega a crocodilo!»
Vamos falar sobre o que aconteceu? Talvez este não seja o momento, agora que sei que voltaste para a tua ex-namorada, quero eu dizer, a tua ex ex namorada, ou lá como se possa chamar àquela que era tua ex-namorada quando ainda era eu a tua namorada... bom, não interessa! Não estou aqui para te criticar meu querido, quem sou eu para o fazer? Quando o nosso namoro acabou também não fiz questão de te guardar respeito nenhum (a verdade é que ainda hoje não guardo...). O respeito que eu guardo pelas pessoas é sincero, vem cá do fundo do coração, entendes? E tu apenas tens lugar num canto do meu cérebro, aquele onde os entendidos na matéria dizem que se armazenam as memórias. Tu és uma memória, ou várias... E as memórias são passado e o passado é como uma meia rota que se guarda no fundo da gaveta com preguiça de cozer... mas, e porque o facto de te ter visto com aquela que (curiosamente!) seria a última pessoa com quem voltarias a ter alguma coisa, (peço-te desculpa por estar a citar palavras tuas, não quero de maneira nenhuma roubar-te os direitos de autor sobre elas!) me fez pensar na pessoa que tu és, dei-me conta que há coisas que gostaria de te dizer e que guardo cá dentro à demasiado tempo! Vou, portanto, vomitar palavras, pode ser que assim desenjoe de lembranças que já passaram de validade à muito! Tu és ridículo, e não estou tão pouco a falar do teu caso com essa rapariga que fez de ti um chinelo na vida dela, até porque acho que nasceste mesmo para ser usado, visto que fazes questão de repetir a dose. És ridículo porque eu dei-te tudo, não estando sequer a falar dos bens materiais, porque esses a mim não me fazem falta, estou a falar da atenção, do carinho, do companheirismo, do apoio, do amor! Dei-te porque quis, porque achei outrora que era amor o que nos unia, porque fui ingénua! Não me arrependeria de o ter feito, nem mesmo depois de me teres apagado completamente como pessoa durante esses dois anos de namoro, acredita que não, porque a minha palavra não é como a tua, não vira conforme a maré... Apenas te tenho a dizer que o que dizes de mim aos teus amigos de copos não me interessa. A tua falta de chá não me interessa, até porque já nem chamaria a isso falta de chá mas sim falta de berço. Se fosse só o chá ainda ias a tempo de o beber, o problema é que o berço já ninguém vai a tempo de to dar. Aprende uma coisa, de cada vez que falas mal de mim estás-te a auto apelidar de otário, porque se eu de facto sou tudo isso que dizes o que estavas então tu a fazer a meu lado? Como te disse e repito, és ridículo. E desculpa a minha falta de gentileza, mas tinha mesmo que desenjoar de tudo o que está a acontecer...
Cresci a ouvi dizer, quem nasce jacaré jamais chega a crocodilo!
Assim me despeço de ti, meu ex jacaré.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Por amor
Ela era pintora, ele músico. Ambos amantes da arte. Em comum não tinham apenas anos de vida lado a lado, mas também sonhos e paixões.
-L, temos de falar.
L continuava concentrada no quadro que estava a pintar e nada dizia, então J insistiu:
-L, estás-me a ouvir? Temos que falar!
-Sim J, eu estou-te a ouvir, fala.
-Não estás a perceber, pára de pintar, é um assunto sério!
-Está bem J.
L levantou-se, puxou uma cadeira para junto de J e disse:
-Pronto, estou completamente atenta, até dos meus quadros já tens ciumes! - e sorriu.
-Eu não sei muito bem como te dizer isto, não há uma forma correcta de o fazer, quer dizer, pelo menos a mim nunca me ensinaram e duvido que de facto exista...- enquanto falava J mantinha os olhos fixos no chão.
-Que se passa? Porque não olhas para mim? Que conversa é essa?
-Eu quero que percebas o que te vou dizer, mas mais do que isso quero que depois do que eu te disser não me odeies.
-É claro que não te vou odiar, tu sabes que te amo.
Houve um longo momento de silêncio até que J disse:
-Eu trai-te.
L levantou-se repentinamente, atirou bruscamente com a cadeira e voltou-se de costas para J, permanecendo ali inerte, de cabeça baixa e soluçando compulsivamente. J não se mexeu, sentia-se congelado por dentro, não sabia como agir.
-Eu conheci a M no aniversário do R, não sei explicar o que aconteceu mas ela fascinou-me. Houve qualquer coisa nela que me atraiu, não sei explicar porque o fiz, nem porque o continuei a fazer mas...
-Poupa-me os pormenores! Há quanto tempo?- perguntou L enquanto tentava abafar o seu choro.
-Desde a tua viagem a Madrid.
-Gostas dela?- L continuava de costas voltadas, evitando encarar J.
-Sim, desculpa.
L voltou-se para J e deu-lhe um enorme estalo, gritando:
-Sabes o que é sentires-te humilhada? Sabes?!
-L, por favor, só te peço que tenhas calma. Não se escolhe de quem se gosta...
-Claro que não se escolhe de quem se gosta, porque se me dessem essa oportunidade eu não gostaria de um palerma como tu!
-Acalma-te por favor! Eu nunca quis ter-te faltado ao respeito, eu não consigo controlar tudo o que acontece comigo, eu sei que não merecias, eu sei, mas o que querias afinal? Que continuasse a enganar-te por ter pena ou medo de te deixar?
-Que fosses um homem, porque eu sempre fui uma mulher a teu lado.
-Eu sei, por isso mesmo estou a ter esta conversa contigo.
-Não, tu estás a ter esta conversa comigo porque queres que te deixe ser feliz com essa mulher qualquer que dizes amar. Faz o que quiseres, mas por favor, desaparece da minha frente que eu não consigo olhar para ti.
J levantou-se e dirigiu-se lentamente para a porta, antes de fechar a porta disse:
-Espero que um dia me consigas perdoar.
-E eu espero que um dia te façam tão infeliz como me estás a fazer a mim neste momento, e de preferência essa mulher que dizes amar.
J saiu, mal fechou a porta as lágrimas que contivera durante a conversa sairam disparadas, começou a vaguear pelas ruas desertas da cidade e ao longe ouviu alguém gritar:
-J! J!
Era P, o seu melhor amigo.
-Que se passa J? Eii, porque estás a chorar?
-Acabou tudo, disse à L que a trai, ela não vai mais conseguir olhar para mim.
-Não estou a entender! Traiste a L? Não acredito nisso!
-Não, não trai a L, sabes bem o quanto amo aquela mulher.
-Estás doido J? Então porque lhe foste dizer isso?
-Eu vou morrer a qualquer momento.
-O quê??
-Eu tenho um aneurisma, uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento, quando esse dia chegar não quero que a L esteja presa a mim. Não quero que ela não seja capaz de refazer a sua vida porque me perdeu inesperadamente. Quero que ela seja feliz, que encontre alguém que a faça feliz sem ter medo de no dia seguinte já não estar cá para ela.
-Meu Deus, não pode ser verdade.
-Mas é amigo, mas é. E a única coisa que te peço é que a L nunca saiba de nada disto. Nunca.
-Não podes fazer isso, é uma escolha que tem que ser ela a fazer, J não podes fazer isto!
-Já fiz, quero que ela seja feliz P, só isso. Não quero que ela viva como eu, não quero que ela tenha medo a cada hora que passa, ela não merece viver assim. Mais do que isso, ela não merece vir um dia a viver agarrada a recordações...
(...)
Por vezes atrás de uma dolorosa mentira, esconde-se uma cruel verdade.
-L, temos de falar.
L continuava concentrada no quadro que estava a pintar e nada dizia, então J insistiu:
-L, estás-me a ouvir? Temos que falar!
-Sim J, eu estou-te a ouvir, fala.
-Não estás a perceber, pára de pintar, é um assunto sério!
-Está bem J.
L levantou-se, puxou uma cadeira para junto de J e disse:
-Pronto, estou completamente atenta, até dos meus quadros já tens ciumes! - e sorriu.
-Eu não sei muito bem como te dizer isto, não há uma forma correcta de o fazer, quer dizer, pelo menos a mim nunca me ensinaram e duvido que de facto exista...- enquanto falava J mantinha os olhos fixos no chão.
-Que se passa? Porque não olhas para mim? Que conversa é essa?
-Eu quero que percebas o que te vou dizer, mas mais do que isso quero que depois do que eu te disser não me odeies.
-É claro que não te vou odiar, tu sabes que te amo.
Houve um longo momento de silêncio até que J disse:
-Eu trai-te.
L levantou-se repentinamente, atirou bruscamente com a cadeira e voltou-se de costas para J, permanecendo ali inerte, de cabeça baixa e soluçando compulsivamente. J não se mexeu, sentia-se congelado por dentro, não sabia como agir.
-Eu conheci a M no aniversário do R, não sei explicar o que aconteceu mas ela fascinou-me. Houve qualquer coisa nela que me atraiu, não sei explicar porque o fiz, nem porque o continuei a fazer mas...
-Poupa-me os pormenores! Há quanto tempo?- perguntou L enquanto tentava abafar o seu choro.
-Desde a tua viagem a Madrid.
-Gostas dela?- L continuava de costas voltadas, evitando encarar J.
-Sim, desculpa.
L voltou-se para J e deu-lhe um enorme estalo, gritando:
-Sabes o que é sentires-te humilhada? Sabes?!
-L, por favor, só te peço que tenhas calma. Não se escolhe de quem se gosta...
-Claro que não se escolhe de quem se gosta, porque se me dessem essa oportunidade eu não gostaria de um palerma como tu!
-Acalma-te por favor! Eu nunca quis ter-te faltado ao respeito, eu não consigo controlar tudo o que acontece comigo, eu sei que não merecias, eu sei, mas o que querias afinal? Que continuasse a enganar-te por ter pena ou medo de te deixar?
-Que fosses um homem, porque eu sempre fui uma mulher a teu lado.
-Eu sei, por isso mesmo estou a ter esta conversa contigo.
-Não, tu estás a ter esta conversa comigo porque queres que te deixe ser feliz com essa mulher qualquer que dizes amar. Faz o que quiseres, mas por favor, desaparece da minha frente que eu não consigo olhar para ti.
J levantou-se e dirigiu-se lentamente para a porta, antes de fechar a porta disse:
-Espero que um dia me consigas perdoar.
-E eu espero que um dia te façam tão infeliz como me estás a fazer a mim neste momento, e de preferência essa mulher que dizes amar.
J saiu, mal fechou a porta as lágrimas que contivera durante a conversa sairam disparadas, começou a vaguear pelas ruas desertas da cidade e ao longe ouviu alguém gritar:
-J! J!
Era P, o seu melhor amigo.
-Que se passa J? Eii, porque estás a chorar?
-Acabou tudo, disse à L que a trai, ela não vai mais conseguir olhar para mim.
-Não estou a entender! Traiste a L? Não acredito nisso!
-Não, não trai a L, sabes bem o quanto amo aquela mulher.
-Estás doido J? Então porque lhe foste dizer isso?
-Eu vou morrer a qualquer momento.
-O quê??
-Eu tenho um aneurisma, uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento, quando esse dia chegar não quero que a L esteja presa a mim. Não quero que ela não seja capaz de refazer a sua vida porque me perdeu inesperadamente. Quero que ela seja feliz, que encontre alguém que a faça feliz sem ter medo de no dia seguinte já não estar cá para ela.
-Meu Deus, não pode ser verdade.
-Mas é amigo, mas é. E a única coisa que te peço é que a L nunca saiba de nada disto. Nunca.
-Não podes fazer isso, é uma escolha que tem que ser ela a fazer, J não podes fazer isto!
-Já fiz, quero que ela seja feliz P, só isso. Não quero que ela viva como eu, não quero que ela tenha medo a cada hora que passa, ela não merece viver assim. Mais do que isso, ela não merece vir um dia a viver agarrada a recordações...
(...)
Por vezes atrás de uma dolorosa mentira, esconde-se uma cruel verdade.
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