Este é um blog de sonhos. Os textos aqui publicados fazem parte do universo imaginário de LL. No entanto, apesar de serem criados no imaginário, quantos deles não nascem na realidade? *
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Ele não sabe esquecer e eu também não
Ele vai-te dizer que não sabe dançar, vai-se encostar ao balcão e deixar que a pista seja toda tua. E talvez tu até nem queiras. Vais insistir para que ele dance, e ele vai-te dizer vezes sem conta que os seus pés mais não servem do que para mandar uns chutos numa bola. Porque ele não te vai dizer que aprendeu a dançar comigo, para que tu não percebas que os seus passos ainda hoje só se coordenam com os meus. Ele vai-te dizer que não sabe cozinhar, não para te levar a jantar fora, mas porque ele nunca te vai dizer que o único prato que aprendeu a cozinhar é o meu prato preferido. Ele vai-te dizer que não sabe nada sobre moda e que tudo o que compras te fica bem, não por amor, mas porque não quer que percebas que ainda hoje só pensa no que fica melhor com os meus cabelos pretos, esquecendo-se que os teus cabelos são tão claros que o rosa salmão nunca te ficaria bem. Ele não te vai dizer nada que tu não queiras ouvir. Não te vai falar de mim. Não te vai contar que aprendeu a dançar por ciúmes, ciúmes dos olhares quando era eu a rainha da pista. Não te vai contar que aprendeu a cozinhar o meu prato preferido por amor, para que eu me sentisse orgulhosa por ver aquilo de que ele era capaz. Não te vai contar que não é cego e que até me sabia dizer qual a cor que mais me favorecia. Por carinho, um carinho por ti que jamais o deixará dizer-te que olha para ti e não consegue ver quem és. Ele sabe quem eu sou. Mas nega e negará quantas vezes for preciso. Porque ele quer esquecer que um dia aprendeu a dançar comigo, quer esquecer que aprendeu a cozinhar por mim e que ainda hoje sabe quem sou.
Não o culpo, porque também eu ainda tento esquecer que foi com ele que aprendi a amar.
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Qual de nós dois
Qual de nós dois venceu? Tu não, porque eu não fui vencida por ti, mas sim pelo orgulho. Eu também não, porque tu não foste vencido por mim, mas sim pelo cansaço. O meu orgulho não me deixou lutar por ti, o teu cansaço fez-te desistir de mim. Não é uma guerra justa. Não há guerra sem vencedor. Engraçado, acho que não travamos uma guerra um contra o outro, mas sim cada um contra si mesmo. Eu queria ter feito alguma coisa, mas o meu orgulho não deixou. Entendo também o lado dele, não se queria ferir. Tu já não conseguias fazer mais nada, o cansaço fez-te refém. E enquanto tu eras refém de um cansaço e eu não ia à luta para que o orgulho não se ferisse, a guerra que nunca chegamos a travar... terminou. E nós fizemos uma retirada estratégica. Deixaste de querer conquistar-me. Sabes o que te diria se o meu orgulho deixasse? Não precisas de lutar, toda eu ainda te pertenço. Não precisarias sequer de travar uma guerra para que de novo tudo fosse teu. É triste, é muito triste pensar assim. Por isso, talvez eu devesse agradecer ao meu orgulho nunca me ter deixado dizer-te. Afinal, todos queremos ser uma luta difícil e é sempre melhor que desistam de nós pelo cansaço do que por julgarem que quem conquista Portugal também consegue conquistar a Europa.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Um dia encontro-te e conto-te
Quando os nossos olhares se cruzam, perguntam em silêncio as coisas que jamais podem ser ditas em voz alta. Sei que um dia te vou encontrar longe da multidão, nesse dia quero perguntar-te o que é feito de ti e quero ouvir-te dizer que estiveste sempre ali. Nesse dia vou falar-te das noites em que me culpo de todos os meus erros, esquecendo-me que foste tu quem mais errou. Quero ouvir-te dizer que eu devia ter esperado por ti, para te poder responder que ainda hoje estou à tua espera.
Quando os nossos olhares se cruzam a multidão conta a nossa história. Falam eles do que não viveram... Julgando o que para eles foi mais um amor falhado. Não foi o amor quem falhou, fomos nós. Aquele não era o nosso tempo. O nosso tempo é agora.
Disse que um dia te encontro e nesse dia te conto, mas como te encontro hoje e te conto que esse dia é agora?
domingo, 27 de outubro de 2013
O perdão
Não me conseguia lembrar da última vez que ali havia entrado, já teria passado certamente muito tempo, mas não o suficiente como vim a perceber pouco tempo depois. Estava com uma amiga, daquelas amizades que resistem ao tempo e às circunstâncias da vida. Ela sentia-se como um peixe na água, aquele era o seu habitat, mas para mim nem as lembranças das tardes e noites lá passadas me faziam sentir minimamente à vontade. Sentamo-nos numa mesa ao fundo do café, pela primeira vez entrava no café que outrora havia sido ''o nosso café'' e não conhecia quem me estava a atender. R falou para quem nos viera atender com um à vontade que me deu de imediato a perceber que ela o conhecia. Eu, como qualquer cliente que está apenas de passagem, contrastei com a familiaridade com que ela fez o seu pedido e num tom de voz formal disse apenas: - É um café curto, por favor. R olhou para mim de forma desaprovadora e não perdeu a oportunidade de comentar: - Longe vão os tempos em que aqui chegavas e quem quer que estivesse a trabalhar sabia que querias um café curto. Não respondi ao seu comentário, nada havia para dizer. A verdade era essa, mas nem eu nem ninguém podia afirmar com certeza ter sido pior assim. Nunca ninguém disse que manter os mesmos hábitos ao longo dos anos era saudável. Estivemos ali cerca de uma hora, R decidiu ficar por lá, mas para mim já se começava a tornar aborrecido. Despedi-me de R e fui em direcção à porta, quando me estava a preparar para sair do café, vestindo o casaco que havia comprado para os dias de chuva, senti uma mão no meu braço. Virei-me de imediato, julgando ser R, afinal estava enganada. Ele continuava exactamente igual, como se os anos não tivessem passado e os dias não tivessem contado. O mesmo sorriso, a mesma barba por aparar, o mesmo brilho nos seus olhos que desta vez quase que ia jurar que estavam verdes. Tinha menos confiança no olhar, este parecia mais claro, como se estivesse repleto de água por demasiado tempo. A àgua corrói, ele deveria saber disso. - Duvidei que fosses mesmo tu L... , disse quando fixou o seu olhar no meu e percebeu que sim, estava mesmo na minha presença. - Sou eu sim, com licença. - disse de forma fria, direccionando o meu olhar novamente para a porta e continuando a andar. As minhas mãos tinham gelado e o meu coração batia acelerado. Não conseguia perceber porquê. Julguei que o havia perdoado ao longo de todo este tempo, e ali estava eu, incapaz de manter um mero diálogo ocasional. Lá fora chuviscava, não tinha trazido guarda-chuva, decidi pôr o carapuço enquanto me dirigia para o carro. O passo era lento, as gotas escassas não o exigiam apressado e o meu coração não o permitia com medo que eu mesma sufocasse. De repente, ouvi passos atrás de mim e parei. - L! - era ele. - J, por favor, o que fazes a correr atrás de mim? , - Faço aquilo que me culpei de não ter feito ao longo dos anos... - disse com o olhar fixo em mim - Não faças isto J, vai-te embora. - disse eu em tom de suplício. - Quase nem te conhecia L, pintaste o cabelo com uma cor tão escura e eu que te tenho procurado em todas as mulheres de cabelos loiros com quem me cruzo na rua... - disse J mantendo sempre o seu olhar fixo em mim. - As pessoas mudam J, e por isso mesmo não fazes nada aqui, mais não somos que dois desconhecidos que outrora se conheceram. - disse eu devagar, como se tivesse imaginado o momento em que pudesse dizer aquilo, vezes e vezes sem conta. - Ainda não me conseguiste perdoar L? - disse J - Acho que sim J, agora que estás aqui à minha frente como se estivesses arrependido de todas as vezes em que me trocaste por pedaços de noites com mulheres mal amadas, percebo que te perdoei. Não me perdoo é a mim. Não há perdão para uma mulher que se deixa enganar da forma mais ridícula e humilhante. Não há perdão para a mulher que se afasta por achar que todos no café sabem a sua história. Não há perdão para a mulher que deixa de ser quem é e pinta os seus cabelos de preto para fugir a uma identidade. Não há perdão para mim, entendes?
Entrei no carro, fiz inversão de marcha e decidi conduzir, sem destino, para um lugar realmente desconhecido.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
P* e vinho verde
«À minha maneira louca, eu descobri que te amei.»
Mas não bastou.
Não há amor que baste quando a tua loucura te fará sempre escolher...
P* e vinho verde,
um dia vais perceber que a felicidade não se paga.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Não há remédio
Ali estávamos nós, tanto tempo depois, querendo remediar o irremediável. Acho que é esse o problema de todos os que um dia se amaram, achar que ainda há remédio. Não há remédio que apague os dias de sofrimento, nem tão pouco já se inventou uma qualquer poção mágica que apenas nos lembre o que é bom recordar. Mas ainda assim nós insistimos. Não podíamos desistir sem pelo menos acreditar, uma vez que fosse, que havia remédio. E se remédio para nós não houvesse, porque não uma poção mágica?
Falei-te de mim e de quem tinha agora comigo. Falaste-me de ti e de quem ias tendo a teu lado. Contei-te o que não conto a mais ninguém, contaste-me o que apenas eu consigo compreender. Perguntaste-me se estava feliz e eu respondi que sim, olhaste para mim com ar desconfiado e perguntaste logo de seguida, Se estás feliz o que fazes tu aqui, tentando remediar o passado?. Eu não queria remediar o passado, queria voltar a ele. Não queria cozer o buraco que um dia fizemos, queria novamente calçar a meia sem qualquer buraco nem tão pouco remendo. Era isso que eu queria. Mas nada disse, encolhi os ombros e sussurrei baixinho, Estou aqui porque ainda não te esqueci. Não esperavas ouvi-lo e eu não esperava dizê-lo, mas disse. Disseste que devíamos dar uma outra oportunidade ao que sentíamos. Claro que quando o disseste não pensaste em quem ias tendo a teu lado aqui e ali, de quando em vez. Mas eu pensei em quem tinha comigo, em quem tinha cozido o buraco na minha meia esquecida. Então, e pela última vez, respondi firmemente, Não, o que não tem remédio, remediado está!
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Eu era furacão, tu brisa.
Eu era furacão, tu brisa. Pelo menos era assim que nos descreviam os nossos amigos. Tu a calma apaziguadora, eu a guerra constante. Em guerra comigo, em guerra com os outros, em guerra com o mundo. Hoje pergunto-me se sentirás saudades das batalhas travadas, ou se simplesmente te sentes melhor desde que encontraste a paz. Eu desligada, tu atento. Eu uma sonhadora, tu realista. E era tão diferente tudo o que nos rodeava que as pessoas tinham dificuldade em compreender o que nos unia. Mas é tão fácil de compreender a quem o vive... O que nos unia era amor. Não aquele amor arrebatador que vem do nada e consome tudo, não era desse amor que se tratava. Era o amor construído aos poucos, em bases sólidas, o amor cuidado, como tu gostavas de lhe chamar. O nosso amor era como uma flor que juntos fomos regando, tirando as ervas daninhas, deixando crescer e florescer. E o tanto que eu gosto de flores! Será que ainda te lembras disso? Às vezes pergunto-me se te lembrarás de mim quando vês uma tulipa a florescer num vaso. Dizias que era a mulher mais simples que alguma vez havias conhecido, que o meu rosto brilhava sempre que me oferecias uma flor e que gostavas de estar comigo sentados na margem do rio, mesmo que eu nada dissesse, porque jamais te cansavas de mim. Mas de repente eu levantava-me e exclamava vamos dar um mergulho! e tu incrédulo respondias L, é de noite, está frio e não temos roupa seca para vestir, não quero que te constipes! e eu enternecida com as tuas palavras dava-te um beijo na testa e corria para o rio dizendo eu vou, ficas? e tu sorrindo levantavas-te para vir ao meu encontro, dizendo que não acreditavas que houvesse no mundo alguém que fosse uma maior caixa de surpresas do que eu mesma. Eu também não acreditava que houvesse alguém que melhor soubesse cuidar de mim do que tu. Só tu sabias as fragilidades que mantinha escondidas debaixo desta máscara de mulher furacão. Sabias que mais ninguém me conhecia como tu e que se te perdesse viveria para sempre a fachada da mulher pedra. Será que não te lembras disso agora? Será que não pensas em como me sentirei sem ti para cuidar de mim? Gostava que sentisses saudades minhas, da L que sou, saudades até da minha loucura. Eu tenho saudades tuas. Saudades do teu abraço, das tuas palavras, vai tudo ficar bem L, eu estou aqui.. Mas tudo mudou, de ti nada sei. Não sei se estás bem, se és feliz, se seguiste a tua vida. Sei apenas que nunca ninguém me disse que perguntaste por mim, nunca ninguém me disse que esperavas que estivesse tudo bem comigo. Também ninguém me disse que havias encontrado alguém e eu mantenho a esperança de que ainda não tenhas conseguido amar alguém depois de mim. Repetias vezes sem conta que tinha sido comigo que havias conhecido o amor. Mas hoje eu sei que foi também comigo que sentiste o que era viver uma desilusão. Foi a mesma loucura que te fez apaixonar por mim que te levou a desistir deste amor. Hoje compreendo, sei que não é fácil amar-me. Depois de ti muitos se apaixonaram, mas nenhum foi capaz de me amar. O amor conheci-o contigo, a teu lado. Conheci-o quando dávamos as mãos e de repente eu soltava a minha mão da tua e gritava não me apanhas! enquanto corria... Mas um dia soltamos as mãos e eu não corri, fiquei perplexa a olhar para ti enquanto lágrimas escorriam dos teus olhos. Desta vez foste tu quem correu, pedindo que não te tentasse alcançar. Até hoje de ti nada sei a não ser a certeza de que foste capaz de correr sem travar nenhuma batalha. Eu batalhei muito, batalhei contra mim mesma e até contra a minha própria loucura. Quem sabe um dia não voltemos a dar as mãos, nem que seja uma última vez, para que eu te possa dizer que nunca ninguém foi capaz de segurar a minha mão de forma tão firme! Talvez porque nunca ninguém foi capaz de compreender a minha loucura...
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