Este é um blog de sonhos. Os textos aqui publicados fazem parte do universo imaginário de LL. No entanto, apesar de serem criados no imaginário, quantos deles não nascem na realidade? *
terça-feira, 28 de maio de 2013
Um homem
Lá fora chovia. L, encostada ao vidro do café, via as pessoas correrem apressadas, com vidas cheias e assuntos pendentes. L mantinha-se ali, como se na sua vida nada estivesse por fazer, como se não houvesse ninguém à sua espera, como se não houvesse algures alguém com quem ir ter. Bebia um copo de café americano quente, era a sua tentativa de aquecer um pouco o coração. Como num passo de magia, alguém se aproxima.
(...)
Não foi assim que nenhum dos dois imaginou o dia do seu reencontro. Esperava-se um forte bater do coração, um friozinho na barriga, borboletas no estômago. Mas nada disso aconteceu. Foram namorados nos seus áureos tempos do secundário e havia sido a primeira grande e arrebatadora paixão das suas vidas. Acabou inesperadamente e cada um havia seguido o seu caminho, três anos depois ali estavam eles, numa mesa de um café perdido no centro da cidade onde outrora percorreram as ruas de mãos dadas e corações entrelaçados.
- E as coisas contigo, está tudo bem? - Perguntava J enquanto colocava o açúcar no chá que havia pedido.
- Acho que foi por isso que não deu certo. - Disse L concentrando o olhar no seu copo de café americano.
- Não percebi, apenas te perguntei como estavas L... - Disse J confuso quanto à afirmação proferida por L.
- Não é isso, é o chá. - Respondeu L.
- O chá? - Perguntou J ainda mais confuso.
- Desejei tantas vezes que fosses um homem de café e não de chá. Um homem de cerveja gelada e não de água natural. Um homem, apenas isso.
Houve um constrangedor momento de silêncio e numa tentativa de fugir às cruas palavras de L, J disse:
- E o que fazes tu aqui sozinha? - J evitava beber o chá que havia pedido.
- Cansei-me de chorar sozinha e vim chorar para o meio da multidão. - Afirmou L com voz cansada e olhar perdido.
- O que se passa L? - Perguntou J preocupado.
- Uma relação falhada J. - Disse L envergonhada.
- Falhada porquê? - J estava curioso quanto ao que ouvia.
- Traição... - Uma lágrima escorreu do olhar de L que fixava a mesa.
- Não precisas de falar, mas se quiseres desabafar não estás sozinha, eu estou aqui. - Disse J tentando aliviar um pouco a dor que sabia que L estava a sentir.
- Obrigada...- Disse L não conseguindo deixar de se sentir completamente perdida.
- Não agradeças, só acho que devias saber que é isso que acontece quando se procura muito mais café e muito menos chá.
L olhou novamente pelo vidro molhado que a separava da multidão que corria apressada por entre as gotas de chuva. E pensou no quanto gostava de se ter apaixonado pelo jeito de chás de um senhor como J e não por um homem de cervejas geladas como R. Mas a verdade é só uma, não era de um senhor que L precisava, mas sim de um homem.
quarta-feira, 20 de março de 2013
A conversa
Entrei distraidamente no café da minha rua, doía-me a cabeça da noite anterior, tinha bebido mais do que seria capaz de suportar. Lá fora chovia e o dia frio e escuro deixava-me com uma expressão demasiado apagada. Sentei-me numa mesa logo à entrada, pedi um café curto e comecei o ler o meu signo da semana na revista que trazia comigo. Subitamente oiço alguém dizer o meu nome e levanto a cabeça, reconhecera a voz, mas precisava de ver para conseguir acreditar.
-T! - Exclamei surpresa.
-Como estás?
-Bem e tu?
-Também. Estás sozinha? Posso sentar-me?
-Sim, senta-te.
T pediu um café e uma garrafa de água.
-Estás diferente L, mais bonita, o que eu não acharia possível.
-T, por favor, queres mesmo que acredite nisso?
-Porque não?
-Olha para mim, estou com uma camisola que roubei ao meu pai, com o cabelo apanhado e sem maquilhagem que disfarce as horas de sono a menos.
-Vistas o que vestires, com ou sem maquilhagem, serás sempre uma mulher bonita.
-Obrigada T...
Houve uns longos minutos de um constrangedor silêncio, até que T ganhou coragem para falar.
-Se te convidasse para jantar, aceitarias?
-As coisas mudaram durante este tempo em que não falamos... Eu namoro, não posso aceitar, mas obrigada.
-Namoras? - Perguntou T em tom de incredulidade.
-Sim. Porquê tanta admiração?
-Não acreditaria se não o tivesse ouvido de ti. Conheço-te bem de mais para saber que ontem bebeste uns copos a mais, hoje acordaste com dores de cabeça e vestiste a camisola do teu pai para não teres que combinar nada com nada. A tua vida não mudou muito para quem assumiu um compromisso.
-Eu disse que namoro, não disse que tinha deixado de ter vida social.
-Eu sei, mas será preciso dizer-te novamente que te conheço tão bem que sei que apenas bebes quando a tua vida está demasiado solitária? Quando te cansas do que te rodeia e...
-Não é bem assim! - Interrompi - Talvez não me conheças assim tão bem.
-Conheço sim. Sei também que gostaste muito de mim, mesmo que nunca o tenhas admitido. Mas isso eu percebi demasiado tarde.
-Quem te disse isso enganou-te T.
-Há coisas que não precisam de ser ditas L. Repensa o meu convite para jantar.
-Já te disse, eu tenho namorado.
-Eu sei, eu estou a dizer que podes ter muito mais que isso. Podes ter alguém que seja o suficiente para que deixes de ter estes dias em que achas que vestir a camisola do teu pai e vir sozinha para o café da tua rua basta, porque não basta, muito menos para uma mulher como tu.
-Eu acho que o que basta é desta conversa, tenho que ir.
-L, nem tu acreditas nesse namoro, eu vejo isso nos teus olhos.
Levantei-me, peguei na revista que havia deixado aberta na página dos signos e disse:
-Então devias conseguir ver também que não acredito em ti. Prefiro o meu namoro de Sábado à noite do que as tuas conversas ilusórias de toda a semana.
-T! - Exclamei surpresa.
-Como estás?
-Bem e tu?
-Também. Estás sozinha? Posso sentar-me?
-Sim, senta-te.
T pediu um café e uma garrafa de água.
-Estás diferente L, mais bonita, o que eu não acharia possível.
-T, por favor, queres mesmo que acredite nisso?
-Porque não?
-Olha para mim, estou com uma camisola que roubei ao meu pai, com o cabelo apanhado e sem maquilhagem que disfarce as horas de sono a menos.
-Vistas o que vestires, com ou sem maquilhagem, serás sempre uma mulher bonita.
-Obrigada T...
Houve uns longos minutos de um constrangedor silêncio, até que T ganhou coragem para falar.
-Se te convidasse para jantar, aceitarias?
-As coisas mudaram durante este tempo em que não falamos... Eu namoro, não posso aceitar, mas obrigada.
-Namoras? - Perguntou T em tom de incredulidade.
-Sim. Porquê tanta admiração?
-Não acreditaria se não o tivesse ouvido de ti. Conheço-te bem de mais para saber que ontem bebeste uns copos a mais, hoje acordaste com dores de cabeça e vestiste a camisola do teu pai para não teres que combinar nada com nada. A tua vida não mudou muito para quem assumiu um compromisso.
-Eu disse que namoro, não disse que tinha deixado de ter vida social.
-Eu sei, mas será preciso dizer-te novamente que te conheço tão bem que sei que apenas bebes quando a tua vida está demasiado solitária? Quando te cansas do que te rodeia e...
-Não é bem assim! - Interrompi - Talvez não me conheças assim tão bem.
-Conheço sim. Sei também que gostaste muito de mim, mesmo que nunca o tenhas admitido. Mas isso eu percebi demasiado tarde.
-Quem te disse isso enganou-te T.
-Há coisas que não precisam de ser ditas L. Repensa o meu convite para jantar.
-Já te disse, eu tenho namorado.
-Eu sei, eu estou a dizer que podes ter muito mais que isso. Podes ter alguém que seja o suficiente para que deixes de ter estes dias em que achas que vestir a camisola do teu pai e vir sozinha para o café da tua rua basta, porque não basta, muito menos para uma mulher como tu.
-Eu acho que o que basta é desta conversa, tenho que ir.
-L, nem tu acreditas nesse namoro, eu vejo isso nos teus olhos.
Levantei-me, peguei na revista que havia deixado aberta na página dos signos e disse:
-Então devias conseguir ver também que não acredito em ti. Prefiro o meu namoro de Sábado à noite do que as tuas conversas ilusórias de toda a semana.
quarta-feira, 6 de março de 2013
Nós, mulheres.
Li recentemente um estudo cientifico que comprovava que nós mulheres temos uma grande capacidade para fazer várias coisas ao mesmo tempo. Depois de uns longos minutos debruçada sobre o mesmo cheguei a uma conclusão que adivinho ser a chave para as questões que atormentam a minha cabeça: Se nós mulheres temos essa dita capacidade para fazer várias coisas ao mesmo tempo, não será então normal que haja mulheres que conseguem gostar de vários homens ao mesmo tempo? É o primeiro namorado, porque todas nós sabemos que não há amor como o primeiro, é o ex-namorado porque quando o namoro acaba ficamos com uma estúpida sensação de que era o homem das nossas vidas, e é o actual que nos vai preenchendo o tempo e o vazio do coração... e ainda há aquele vizinho que joga ténis com quem apenas nos cruzamos no elevador e nunca trocamos mais do que um simpático bom dia, mas ficamos sem jeito de cada vez que o vemos. Numa hora conseguimos pensar em todos eles, agrupá-los, classificá-los e ainda falar deles com as amigas. Falamos em aquele que é o amor da minha vida, em o meu primeiro amor, em o tal que me deixa sem jeito e depois um pouco mais à frente na conversa referimos o meu namorado. É aquilo a que se chamaria um coração e uma mente demasiado ocupados. Em conversa com as amigas diriam: Eu só gosto do meu X, vamos casar e sei que seremos muito felizes. Mas, quando a primeira confessasse que não esqueceu o ex-namorado, choveriam confissões de outros amores. Talvez não devam ser considerados amores, mas nós mulheres chamamos-lhe assim. Talvez porque queremos que entendam que estamos a pensar com o coração, e que deixaremos essas histórias por lá. E deixamos mesmo, provando que não fazemos uso da nossa tão conhecida capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo.
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Agora que foste embora.
Ali estavam eles, na esplanada a que outrora chamaram o sítio do costume, à hora que em tempos apelidaram de a mesma de sempre, mas desta vez por razões nunca antes mencionadas.
-Obrigada por teres vindo J.
-Não devia estar aqui M.
-Eu sei que é complicado perceber a atitude que eu tomei e...
-Não me digas que depois de me teres deixado um ano em vão à espera de qualquer notícia tua me decidiste pedir dez minutos de fama para te justificares!
-Não é bem isso, eu fui clara na altura, e gostava de ter bem mais do que dez minutos.
-Esperei um ano por este dia, acho que posso esperar meia hora...
-Sem ironias, só te queria pedir desculpa.
-Não, espera, repete por favor. Tu pedir-me desculpa a mim?
-Sim, desculpa ter-te magoado.
-A que devo esse pedido de desculpas mais atrasado do que correspondência em tempos de guerra?
-Eu percebi que não posso magoar as pessoas, percebi que não posso passar por cima de ninguém e...
-M, por favor, se decidires lançar-te em pedidos de desculpa retardados a todos os homens que magoaste na vida acho que podes fazer disso profissão a tempo inteiro!
-Pára! Não percebes que mudei? Não vou entrar nesse jogo de sarcasmo.
-Tu mudaste e eu também, por isso mesmo não esperes que aceite esse pedido de desculpa.
-Tudo bem, eu compreendo, só achei que deveria fazê-lo.
-Achaste bem, mas tenta com todos os outros otários que manipulaste, não vai funcionar comigo.
-Estás a ser cruel! Eu não manipulei ninguém, eu nunca te prometi nada! E peço-te que não me fales assim, porque eu também tenho sentimentos.
-Deve ter acontecido um milagre lá pela tua rua para alguém ter conseguido despertar sentimentos dentro de ti.
-Bem, acho que já disse tudo o que queria.
-Magoaram-te, não magoaram M? Magoaram-te e muito. Mais tarde ou mais cedo acabaria por acontecer, tu própria sempre soubeste como acabam as pessoas como tu.
-Sozinhas.
-Não, magoam a vida toda até se apaixonarem por alguém que normalmente é pior do que elas. Quando finalmente estavas disposta a fazer as coisas bem provaste do teu próprio veneno.
-A conversa acabou, posso ter provado do meu próprio veneno mas não faço questão de provar do teu.
M levantou-se, virou costas e foi-se embora. J fechou os punhos, num ataque de fúria contra si próprio que tentava a todo custo controlar. Esperou um ano por aquele dia, tinha pensado em mil coisas que lhe queria dizer, em mil formas de a fazer perceber que não houve um dia em que não tivesse pensado nela. Mas a mágoa acumulada durante todo esse tempo falara mais alto. Levantou-se, atirou com uma moeda para cima da mesa e correu pelo mesmo caminho que a vira partir na ânsia de a encontrar algures numa rua daquela cidade para finalmente lhe poder dizer eu desculpo-te, porque te amo mais do que alguma vez serei capaz de te odiar. Mas, tal como o ano que passara à espera daquele dia, a busca foi em vão, nem sinal da presença de M.
Exausto e desanimado sentou-se nas pedras da calçada e desejou, do fundo do coração, que a dor que M trazia no coração aliviasse e que ela não passasse por tudo o que um dia o fizera passar a ele.
Afinal, quem disse que está tudo no sítio certo?
-Obrigada por teres vindo J.
-Não devia estar aqui M.
-Eu sei que é complicado perceber a atitude que eu tomei e...
-Não me digas que depois de me teres deixado um ano em vão à espera de qualquer notícia tua me decidiste pedir dez minutos de fama para te justificares!
-Não é bem isso, eu fui clara na altura, e gostava de ter bem mais do que dez minutos.
-Esperei um ano por este dia, acho que posso esperar meia hora...
-Sem ironias, só te queria pedir desculpa.
-Não, espera, repete por favor. Tu pedir-me desculpa a mim?
-Sim, desculpa ter-te magoado.
-A que devo esse pedido de desculpas mais atrasado do que correspondência em tempos de guerra?
-Eu percebi que não posso magoar as pessoas, percebi que não posso passar por cima de ninguém e...
-M, por favor, se decidires lançar-te em pedidos de desculpa retardados a todos os homens que magoaste na vida acho que podes fazer disso profissão a tempo inteiro!
-Pára! Não percebes que mudei? Não vou entrar nesse jogo de sarcasmo.
-Tu mudaste e eu também, por isso mesmo não esperes que aceite esse pedido de desculpa.
-Tudo bem, eu compreendo, só achei que deveria fazê-lo.
-Achaste bem, mas tenta com todos os outros otários que manipulaste, não vai funcionar comigo.
-Estás a ser cruel! Eu não manipulei ninguém, eu nunca te prometi nada! E peço-te que não me fales assim, porque eu também tenho sentimentos.
-Deve ter acontecido um milagre lá pela tua rua para alguém ter conseguido despertar sentimentos dentro de ti.
-Bem, acho que já disse tudo o que queria.
-Magoaram-te, não magoaram M? Magoaram-te e muito. Mais tarde ou mais cedo acabaria por acontecer, tu própria sempre soubeste como acabam as pessoas como tu.
-Sozinhas.
-Não, magoam a vida toda até se apaixonarem por alguém que normalmente é pior do que elas. Quando finalmente estavas disposta a fazer as coisas bem provaste do teu próprio veneno.
-A conversa acabou, posso ter provado do meu próprio veneno mas não faço questão de provar do teu.
M levantou-se, virou costas e foi-se embora. J fechou os punhos, num ataque de fúria contra si próprio que tentava a todo custo controlar. Esperou um ano por aquele dia, tinha pensado em mil coisas que lhe queria dizer, em mil formas de a fazer perceber que não houve um dia em que não tivesse pensado nela. Mas a mágoa acumulada durante todo esse tempo falara mais alto. Levantou-se, atirou com uma moeda para cima da mesa e correu pelo mesmo caminho que a vira partir na ânsia de a encontrar algures numa rua daquela cidade para finalmente lhe poder dizer eu desculpo-te, porque te amo mais do que alguma vez serei capaz de te odiar. Mas, tal como o ano que passara à espera daquele dia, a busca foi em vão, nem sinal da presença de M.
Exausto e desanimado sentou-se nas pedras da calçada e desejou, do fundo do coração, que a dor que M trazia no coração aliviasse e que ela não passasse por tudo o que um dia o fizera passar a ele.
Afinal, quem disse que está tudo no sítio certo?
domingo, 6 de janeiro de 2013
«Quem nasce jacaré jamais chega a crocodilo!»
Vamos falar sobre o que aconteceu? Talvez este não seja o momento, agora que sei que voltaste para a tua ex-namorada, quero eu dizer, a tua ex ex namorada, ou lá como se possa chamar àquela que era tua ex-namorada quando ainda era eu a tua namorada... bom, não interessa! Não estou aqui para te criticar meu querido, quem sou eu para o fazer? Quando o nosso namoro acabou também não fiz questão de te guardar respeito nenhum (a verdade é que ainda hoje não guardo...). O respeito que eu guardo pelas pessoas é sincero, vem cá do fundo do coração, entendes? E tu apenas tens lugar num canto do meu cérebro, aquele onde os entendidos na matéria dizem que se armazenam as memórias. Tu és uma memória, ou várias... E as memórias são passado e o passado é como uma meia rota que se guarda no fundo da gaveta com preguiça de cozer... mas, e porque o facto de te ter visto com aquela que (curiosamente!) seria a última pessoa com quem voltarias a ter alguma coisa, (peço-te desculpa por estar a citar palavras tuas, não quero de maneira nenhuma roubar-te os direitos de autor sobre elas!) me fez pensar na pessoa que tu és, dei-me conta que há coisas que gostaria de te dizer e que guardo cá dentro à demasiado tempo! Vou, portanto, vomitar palavras, pode ser que assim desenjoe de lembranças que já passaram de validade à muito! Tu és ridículo, e não estou tão pouco a falar do teu caso com essa rapariga que fez de ti um chinelo na vida dela, até porque acho que nasceste mesmo para ser usado, visto que fazes questão de repetir a dose. És ridículo porque eu dei-te tudo, não estando sequer a falar dos bens materiais, porque esses a mim não me fazem falta, estou a falar da atenção, do carinho, do companheirismo, do apoio, do amor! Dei-te porque quis, porque achei outrora que era amor o que nos unia, porque fui ingénua! Não me arrependeria de o ter feito, nem mesmo depois de me teres apagado completamente como pessoa durante esses dois anos de namoro, acredita que não, porque a minha palavra não é como a tua, não vira conforme a maré... Apenas te tenho a dizer que o que dizes de mim aos teus amigos de copos não me interessa. A tua falta de chá não me interessa, até porque já nem chamaria a isso falta de chá mas sim falta de berço. Se fosse só o chá ainda ias a tempo de o beber, o problema é que o berço já ninguém vai a tempo de to dar. Aprende uma coisa, de cada vez que falas mal de mim estás-te a auto apelidar de otário, porque se eu de facto sou tudo isso que dizes o que estavas então tu a fazer a meu lado? Como te disse e repito, és ridículo. E desculpa a minha falta de gentileza, mas tinha mesmo que desenjoar de tudo o que está a acontecer...
Cresci a ouvi dizer, quem nasce jacaré jamais chega a crocodilo!
Assim me despeço de ti, meu ex jacaré.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Por amor
Ela era pintora, ele músico. Ambos amantes da arte. Em comum não tinham apenas anos de vida lado a lado, mas também sonhos e paixões.
-L, temos de falar.
L continuava concentrada no quadro que estava a pintar e nada dizia, então J insistiu:
-L, estás-me a ouvir? Temos que falar!
-Sim J, eu estou-te a ouvir, fala.
-Não estás a perceber, pára de pintar, é um assunto sério!
-Está bem J.
L levantou-se, puxou uma cadeira para junto de J e disse:
-Pronto, estou completamente atenta, até dos meus quadros já tens ciumes! - e sorriu.
-Eu não sei muito bem como te dizer isto, não há uma forma correcta de o fazer, quer dizer, pelo menos a mim nunca me ensinaram e duvido que de facto exista...- enquanto falava J mantinha os olhos fixos no chão.
-Que se passa? Porque não olhas para mim? Que conversa é essa?
-Eu quero que percebas o que te vou dizer, mas mais do que isso quero que depois do que eu te disser não me odeies.
-É claro que não te vou odiar, tu sabes que te amo.
Houve um longo momento de silêncio até que J disse:
-Eu trai-te.
L levantou-se repentinamente, atirou bruscamente com a cadeira e voltou-se de costas para J, permanecendo ali inerte, de cabeça baixa e soluçando compulsivamente. J não se mexeu, sentia-se congelado por dentro, não sabia como agir.
-Eu conheci a M no aniversário do R, não sei explicar o que aconteceu mas ela fascinou-me. Houve qualquer coisa nela que me atraiu, não sei explicar porque o fiz, nem porque o continuei a fazer mas...
-Poupa-me os pormenores! Há quanto tempo?- perguntou L enquanto tentava abafar o seu choro.
-Desde a tua viagem a Madrid.
-Gostas dela?- L continuava de costas voltadas, evitando encarar J.
-Sim, desculpa.
L voltou-se para J e deu-lhe um enorme estalo, gritando:
-Sabes o que é sentires-te humilhada? Sabes?!
-L, por favor, só te peço que tenhas calma. Não se escolhe de quem se gosta...
-Claro que não se escolhe de quem se gosta, porque se me dessem essa oportunidade eu não gostaria de um palerma como tu!
-Acalma-te por favor! Eu nunca quis ter-te faltado ao respeito, eu não consigo controlar tudo o que acontece comigo, eu sei que não merecias, eu sei, mas o que querias afinal? Que continuasse a enganar-te por ter pena ou medo de te deixar?
-Que fosses um homem, porque eu sempre fui uma mulher a teu lado.
-Eu sei, por isso mesmo estou a ter esta conversa contigo.
-Não, tu estás a ter esta conversa comigo porque queres que te deixe ser feliz com essa mulher qualquer que dizes amar. Faz o que quiseres, mas por favor, desaparece da minha frente que eu não consigo olhar para ti.
J levantou-se e dirigiu-se lentamente para a porta, antes de fechar a porta disse:
-Espero que um dia me consigas perdoar.
-E eu espero que um dia te façam tão infeliz como me estás a fazer a mim neste momento, e de preferência essa mulher que dizes amar.
J saiu, mal fechou a porta as lágrimas que contivera durante a conversa sairam disparadas, começou a vaguear pelas ruas desertas da cidade e ao longe ouviu alguém gritar:
-J! J!
Era P, o seu melhor amigo.
-Que se passa J? Eii, porque estás a chorar?
-Acabou tudo, disse à L que a trai, ela não vai mais conseguir olhar para mim.
-Não estou a entender! Traiste a L? Não acredito nisso!
-Não, não trai a L, sabes bem o quanto amo aquela mulher.
-Estás doido J? Então porque lhe foste dizer isso?
-Eu vou morrer a qualquer momento.
-O quê??
-Eu tenho um aneurisma, uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento, quando esse dia chegar não quero que a L esteja presa a mim. Não quero que ela não seja capaz de refazer a sua vida porque me perdeu inesperadamente. Quero que ela seja feliz, que encontre alguém que a faça feliz sem ter medo de no dia seguinte já não estar cá para ela.
-Meu Deus, não pode ser verdade.
-Mas é amigo, mas é. E a única coisa que te peço é que a L nunca saiba de nada disto. Nunca.
-Não podes fazer isso, é uma escolha que tem que ser ela a fazer, J não podes fazer isto!
-Já fiz, quero que ela seja feliz P, só isso. Não quero que ela viva como eu, não quero que ela tenha medo a cada hora que passa, ela não merece viver assim. Mais do que isso, ela não merece vir um dia a viver agarrada a recordações...
(...)
Por vezes atrás de uma dolorosa mentira, esconde-se uma cruel verdade.
-L, temos de falar.
L continuava concentrada no quadro que estava a pintar e nada dizia, então J insistiu:
-L, estás-me a ouvir? Temos que falar!
-Sim J, eu estou-te a ouvir, fala.
-Não estás a perceber, pára de pintar, é um assunto sério!
-Está bem J.
L levantou-se, puxou uma cadeira para junto de J e disse:
-Pronto, estou completamente atenta, até dos meus quadros já tens ciumes! - e sorriu.
-Eu não sei muito bem como te dizer isto, não há uma forma correcta de o fazer, quer dizer, pelo menos a mim nunca me ensinaram e duvido que de facto exista...- enquanto falava J mantinha os olhos fixos no chão.
-Que se passa? Porque não olhas para mim? Que conversa é essa?
-Eu quero que percebas o que te vou dizer, mas mais do que isso quero que depois do que eu te disser não me odeies.
-É claro que não te vou odiar, tu sabes que te amo.
Houve um longo momento de silêncio até que J disse:
-Eu trai-te.
L levantou-se repentinamente, atirou bruscamente com a cadeira e voltou-se de costas para J, permanecendo ali inerte, de cabeça baixa e soluçando compulsivamente. J não se mexeu, sentia-se congelado por dentro, não sabia como agir.
-Eu conheci a M no aniversário do R, não sei explicar o que aconteceu mas ela fascinou-me. Houve qualquer coisa nela que me atraiu, não sei explicar porque o fiz, nem porque o continuei a fazer mas...
-Poupa-me os pormenores! Há quanto tempo?- perguntou L enquanto tentava abafar o seu choro.
-Desde a tua viagem a Madrid.
-Gostas dela?- L continuava de costas voltadas, evitando encarar J.
-Sim, desculpa.
L voltou-se para J e deu-lhe um enorme estalo, gritando:
-Sabes o que é sentires-te humilhada? Sabes?!
-L, por favor, só te peço que tenhas calma. Não se escolhe de quem se gosta...
-Claro que não se escolhe de quem se gosta, porque se me dessem essa oportunidade eu não gostaria de um palerma como tu!
-Acalma-te por favor! Eu nunca quis ter-te faltado ao respeito, eu não consigo controlar tudo o que acontece comigo, eu sei que não merecias, eu sei, mas o que querias afinal? Que continuasse a enganar-te por ter pena ou medo de te deixar?
-Que fosses um homem, porque eu sempre fui uma mulher a teu lado.
-Eu sei, por isso mesmo estou a ter esta conversa contigo.
-Não, tu estás a ter esta conversa comigo porque queres que te deixe ser feliz com essa mulher qualquer que dizes amar. Faz o que quiseres, mas por favor, desaparece da minha frente que eu não consigo olhar para ti.
J levantou-se e dirigiu-se lentamente para a porta, antes de fechar a porta disse:
-Espero que um dia me consigas perdoar.
-E eu espero que um dia te façam tão infeliz como me estás a fazer a mim neste momento, e de preferência essa mulher que dizes amar.
J saiu, mal fechou a porta as lágrimas que contivera durante a conversa sairam disparadas, começou a vaguear pelas ruas desertas da cidade e ao longe ouviu alguém gritar:
-J! J!
Era P, o seu melhor amigo.
-Que se passa J? Eii, porque estás a chorar?
-Acabou tudo, disse à L que a trai, ela não vai mais conseguir olhar para mim.
-Não estou a entender! Traiste a L? Não acredito nisso!
-Não, não trai a L, sabes bem o quanto amo aquela mulher.
-Estás doido J? Então porque lhe foste dizer isso?
-Eu vou morrer a qualquer momento.
-O quê??
-Eu tenho um aneurisma, uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento, quando esse dia chegar não quero que a L esteja presa a mim. Não quero que ela não seja capaz de refazer a sua vida porque me perdeu inesperadamente. Quero que ela seja feliz, que encontre alguém que a faça feliz sem ter medo de no dia seguinte já não estar cá para ela.
-Meu Deus, não pode ser verdade.
-Mas é amigo, mas é. E a única coisa que te peço é que a L nunca saiba de nada disto. Nunca.
-Não podes fazer isso, é uma escolha que tem que ser ela a fazer, J não podes fazer isto!
-Já fiz, quero que ela seja feliz P, só isso. Não quero que ela viva como eu, não quero que ela tenha medo a cada hora que passa, ela não merece viver assim. Mais do que isso, ela não merece vir um dia a viver agarrada a recordações...
(...)
Por vezes atrás de uma dolorosa mentira, esconde-se uma cruel verdade.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
New York, New York.
Ela estava sentada ao balcão de um bar perdido em New York, numa mão segurava o cigarro e na outra segurava o copo. Era uma mulher bonita, realmente muito bonita, devia estar na casa dos trinta anos e já a tinha visto por lá várias noites, sempre sozinha. Aproximou-se um pouco reticente e disse:
-Boa noite, posso oferecer-lhe uma bebida?
-Boa noite, aceito sim, obrigada.
-Acompanha-me até uma mesa?- perguntou ele.
Ela também já tinha reparado nele. Tinha-o visto várias vezes naquele bar, sempre acompanhado por amigos, às vezes até na companhia de casais, o que a deixava intrigada ao ver um homem que devia ter perto de cinquenta anos sem nunca ter apresentado por lá qualquer companhia feminina. E a verdade era só uma, apesar da sua idade era um homem extremamente charmoso.
-Posso perguntar-lhe como se chama?
-Maria.
-Maria? A Maria não é americana pois não?
-Porque pergunta?
-Tem um sotaque que não consigo assemelhar ao sotaque de nenhum dos nossos estados e o seu nome também não é americano.
-Sou portuguesa.
-E o que faz uma bonita portuguesa sozinha num bar de New York?
-Vivo em New York.
-Ah, é emigrante. Deixe-me adivinhar, veio atrás do «sonho americano»?
-Não sou uma mulher sonhadora, vim atrás de um emprego, vim atrás de estabilidade.
-E encontrou-a?
-A estabilidade que eu procuro não é fácil de encontrar.
-Posso então perguntar-lhe o que faz?
-Trabalho num antiquário, ou seja, vendo o que já ninguém quer comprar. A vantagem é que não tenho um emprego cansativo, e o pó fica sempre bem na montra de exposição.
-Já vi que tem um humor fantástico Maria. Mas conte-me, porquê New York?
-Faço parte de uma geração que em Portugal apelidamos de «geração à rasca», quando saí da universidade em menos de um ano já tinha feito a mala e decidido ir embora do meu país.
-Posso perguntar-lhe o que estudou na universidade?
-Direito.
-Então é uma advogada que trabalha num antiquário de New York... Acho que já percebi, a estabilidade que procura é poder vir a exercer algo relacionado com a sua profissão.
-Não, eu diria que sou uma advogada que trabalha num antiquário de New York e que sonha viver da escrita.
-Não veio atrás do american dream, a Maria veio atrás de um sonho seu. Admiro isso numa mulher jovem, veio sozinha?
-Sim.
-A sua família devia ser uma família de poucas posses, veio atrás de um sonho e ao mesmo tempo quer poder ajudá-los, acertei?
-Não propriamente, eu diria que a minha família vive bem melhor que eu. Os meus pais fazem parte de uma classe média alta e não tenho irmãos.
-Assim torna-se um pouco difícil perceber o motivo que a fez vir, compreendo a situação do seu país, mas pelos vistos não era a mesma situação da sua família.
-Vim em busca de liberdade e deparei-me com a solidão, acho que foi isso que aconteceu.
-Porque não volta?
-Se ter dinheiro implica voltar para casa dos meus pais, não obrigada.
Ele olhou para Maria e viu uma mulher completamente indecifrável à sua frente. Era sem dúvida uma mulher culta, estudada, uma mulher vivida que passava horas a fio durante a noite a escrever e escrever e escrever. Mesmo sabendo que o mais certo seria nunca ninguém chegar a ler o que tanto quis fazer chegar a um grande público de leitores. Decidiu então continuar, estava encantado com a mulher que tinha à sua frente.
-A Maria é casada ou algo do género?
-Não, nunca casei, não tenho filhos e já lhe disse que não tenho irmãos?
O àlcool começava agora a manifestar sinais exteriores em Maria.
-Sim, já. Deve ter sido muito mimada.
-Eu diria mais, devo ter sido muito pressionada! Pressionada a ser tudo aquilo que os meus pais desejavam num filho. Tive que ser bem comportada, tirar boas notas, ir para a universidade, não sair muito para não andar com más companhias...
-Já percebi o porquê de ter saído de casa dos seus pais.
-Não, não percebeu. Eu não saí só de casa dos meus pais, afastei-me da minha família, dos meus amigos e até de um antigo amor.
-Deixou um amor para trás?
-Era fraco de mais para me acompanhar. Disse que eu era uma louca e que mais tarde ou mais cedo voltaria para Portugal arrependida de algum dia ter ido embora. A verdade é que não voltei, embora não tenha feito nada pela minha vida, voltar também não faz parte das minhas opções.
-E o seu amor? Que é feito dele?
-Casou, tem filhos e todas essas coisas bonitas.
-Ainda fala nele, não o esqueceu.
-Acho que o problema é nunca ter vivido nada semelhante ao que vivi com ele. E a mágoa, a mágoa de termos feito planos durante anos. Planeávamos acabar a universidade e sair da nossa cidade, chegamos mesmo a falar em New York e de facto aqui estou eu, mas sozinha. Eu não desisto dos meus sonhos, se nunca os chegar a realizar ninguém poderá dizer que não tentei. E aquele otário ficou na santa terrinha e ainda conseguiu casar com uma antiga amiga minha. Merecem-se, são os dois uns palermas.
-Há quanto tempo não vai a Portugal?
-À tempo suficiente para os meus pais dizerem que eu sou a maior desilusão que podiam ter tido. Acho que eles pensam que tenha uma vida pouco decente por aqui. Até compreendo que tendo criado uma pessoa como eu seja difícil acreditar que estou em New York a trabalhar num antiquário e que só não vivo na companhia de um gato porque faço alergia ao seu pêlo...
A conversa prolongou-se entre drinks e cigarros. Ele tinha-a achado uma mulher encantadora, apesar de ter percebido desde a primeira conversa que mantiveram naquele bar de New York, que Maria vivia à beira de um abismo. Sairam aquela e várias noites. E querem saber o que aconteceu? Apaixonaram-se. A bonita portuguesa de trinta anos apaixonou-se pelo charmoso americano de quase cinquenta. Talvez ela tenha visto nele uma protecção e ele tenha visto nela a companhia que tanto precisava. No ano a seguir casaram, em New York. Um ano após o casamento visitaram Portugal, a família, os poucos amigos que ela mantivera. Todos ficaram admirados com o casamento de Maria, não era um casamento qualquer, era aquilo que só mais tarde ela percebera, o casamento com um dos homens mais importantes de New York. Maria deixou o antiquário e com a ajuda do marido lançou o seu primeiro livro, entitulado That's not an american dream, that's my dream.
Foi um sucesso e o seu antigo amor chegou a ler a tradução do livro em português, comprado a muito custo com o seu dinheiro contado para as despesas da casa, dos filhos e da mulher.
-Boa noite, posso oferecer-lhe uma bebida?
-Boa noite, aceito sim, obrigada.
-Acompanha-me até uma mesa?- perguntou ele.
Ela também já tinha reparado nele. Tinha-o visto várias vezes naquele bar, sempre acompanhado por amigos, às vezes até na companhia de casais, o que a deixava intrigada ao ver um homem que devia ter perto de cinquenta anos sem nunca ter apresentado por lá qualquer companhia feminina. E a verdade era só uma, apesar da sua idade era um homem extremamente charmoso.
-Posso perguntar-lhe como se chama?
-Maria.
-Maria? A Maria não é americana pois não?
-Porque pergunta?
-Tem um sotaque que não consigo assemelhar ao sotaque de nenhum dos nossos estados e o seu nome também não é americano.
-Sou portuguesa.
-E o que faz uma bonita portuguesa sozinha num bar de New York?
-Vivo em New York.
-Ah, é emigrante. Deixe-me adivinhar, veio atrás do «sonho americano»?
-Não sou uma mulher sonhadora, vim atrás de um emprego, vim atrás de estabilidade.
-E encontrou-a?
-A estabilidade que eu procuro não é fácil de encontrar.
-Posso então perguntar-lhe o que faz?
-Trabalho num antiquário, ou seja, vendo o que já ninguém quer comprar. A vantagem é que não tenho um emprego cansativo, e o pó fica sempre bem na montra de exposição.
-Já vi que tem um humor fantástico Maria. Mas conte-me, porquê New York?
-Faço parte de uma geração que em Portugal apelidamos de «geração à rasca», quando saí da universidade em menos de um ano já tinha feito a mala e decidido ir embora do meu país.
-Posso perguntar-lhe o que estudou na universidade?
-Direito.
-Então é uma advogada que trabalha num antiquário de New York... Acho que já percebi, a estabilidade que procura é poder vir a exercer algo relacionado com a sua profissão.
-Não, eu diria que sou uma advogada que trabalha num antiquário de New York e que sonha viver da escrita.
-Não veio atrás do american dream, a Maria veio atrás de um sonho seu. Admiro isso numa mulher jovem, veio sozinha?
-Sim.
-A sua família devia ser uma família de poucas posses, veio atrás de um sonho e ao mesmo tempo quer poder ajudá-los, acertei?
-Não propriamente, eu diria que a minha família vive bem melhor que eu. Os meus pais fazem parte de uma classe média alta e não tenho irmãos.
-Assim torna-se um pouco difícil perceber o motivo que a fez vir, compreendo a situação do seu país, mas pelos vistos não era a mesma situação da sua família.
-Vim em busca de liberdade e deparei-me com a solidão, acho que foi isso que aconteceu.
-Porque não volta?
-Se ter dinheiro implica voltar para casa dos meus pais, não obrigada.
Ele olhou para Maria e viu uma mulher completamente indecifrável à sua frente. Era sem dúvida uma mulher culta, estudada, uma mulher vivida que passava horas a fio durante a noite a escrever e escrever e escrever. Mesmo sabendo que o mais certo seria nunca ninguém chegar a ler o que tanto quis fazer chegar a um grande público de leitores. Decidiu então continuar, estava encantado com a mulher que tinha à sua frente.
-A Maria é casada ou algo do género?
-Não, nunca casei, não tenho filhos e já lhe disse que não tenho irmãos?
O àlcool começava agora a manifestar sinais exteriores em Maria.
-Sim, já. Deve ter sido muito mimada.
-Eu diria mais, devo ter sido muito pressionada! Pressionada a ser tudo aquilo que os meus pais desejavam num filho. Tive que ser bem comportada, tirar boas notas, ir para a universidade, não sair muito para não andar com más companhias...
-Já percebi o porquê de ter saído de casa dos seus pais.
-Não, não percebeu. Eu não saí só de casa dos meus pais, afastei-me da minha família, dos meus amigos e até de um antigo amor.
-Deixou um amor para trás?
-Era fraco de mais para me acompanhar. Disse que eu era uma louca e que mais tarde ou mais cedo voltaria para Portugal arrependida de algum dia ter ido embora. A verdade é que não voltei, embora não tenha feito nada pela minha vida, voltar também não faz parte das minhas opções.
-E o seu amor? Que é feito dele?
-Casou, tem filhos e todas essas coisas bonitas.
-Ainda fala nele, não o esqueceu.
-Acho que o problema é nunca ter vivido nada semelhante ao que vivi com ele. E a mágoa, a mágoa de termos feito planos durante anos. Planeávamos acabar a universidade e sair da nossa cidade, chegamos mesmo a falar em New York e de facto aqui estou eu, mas sozinha. Eu não desisto dos meus sonhos, se nunca os chegar a realizar ninguém poderá dizer que não tentei. E aquele otário ficou na santa terrinha e ainda conseguiu casar com uma antiga amiga minha. Merecem-se, são os dois uns palermas.
-Há quanto tempo não vai a Portugal?
-À tempo suficiente para os meus pais dizerem que eu sou a maior desilusão que podiam ter tido. Acho que eles pensam que tenha uma vida pouco decente por aqui. Até compreendo que tendo criado uma pessoa como eu seja difícil acreditar que estou em New York a trabalhar num antiquário e que só não vivo na companhia de um gato porque faço alergia ao seu pêlo...
A conversa prolongou-se entre drinks e cigarros. Ele tinha-a achado uma mulher encantadora, apesar de ter percebido desde a primeira conversa que mantiveram naquele bar de New York, que Maria vivia à beira de um abismo. Sairam aquela e várias noites. E querem saber o que aconteceu? Apaixonaram-se. A bonita portuguesa de trinta anos apaixonou-se pelo charmoso americano de quase cinquenta. Talvez ela tenha visto nele uma protecção e ele tenha visto nela a companhia que tanto precisava. No ano a seguir casaram, em New York. Um ano após o casamento visitaram Portugal, a família, os poucos amigos que ela mantivera. Todos ficaram admirados com o casamento de Maria, não era um casamento qualquer, era aquilo que só mais tarde ela percebera, o casamento com um dos homens mais importantes de New York. Maria deixou o antiquário e com a ajuda do marido lançou o seu primeiro livro, entitulado That's not an american dream, that's my dream.
Foi um sucesso e o seu antigo amor chegou a ler a tradução do livro em português, comprado a muito custo com o seu dinheiro contado para as despesas da casa, dos filhos e da mulher.
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