quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Cuida de mim.

Ali estava eu, de malas e bagagens no meio da rua. Chovia e eu precisava de um sítio onde me abrigar. Olhei para ti, na esperança de te ouvir dizer que voltasse rapidamente para o carro, mas arrancaste descontraidamente e vi-te ir embora. Corri rapidamente em direcção ao café mais próximo, mas as malas atrasavam-me os movimentos e o guarda-chuva ameaçava fugir, tentado pelo vento. Quando finalmente alcancei o café, olhei para o espelho de moldura dourada que embelezava a parede da entrada e vi uma mulher de cabelos molhados e escorridos, com a maquilhagem borratada, as roupas humidas coladas à pele. Vi-me a mim, tal como me havias deixado ficar. Eu e os meus vinte anos certamente haviamos de encontrar uma qualquer maneira de voltar para casa que não implicasse atrasar os teus planos. Sentei-me numa mesa logo à entrada, não fazia grande questão de passear naquele estado pelo café e as malas não me ajudavam. Um senhor de meia-idade veio perguntar se desejava alguma coisa e eu pedi um café curto enquanto tirava um cigarro do maço. Pus o açucar no café, mexi e acendi o cigarro enquanto pensava numa alternativa para voltar para casa, lembrei-me que me tinhas dito para ligar a um amigo para me vir buscar. Disseste-o com o propósito de te dar um ar preocupado, para que o amigo que ia contigo não achasse que eras um namorado demasiado desleixado, deixando-me ali sozinha sem saber como ir para casa porque tinhas planos. E os teus planos eram de extrema importância. Não podias chegar atrasado ao jantar, que falta de educação! Ah, espera, mas deixares-me no meio da cidade com o objectivo de me desenrrascar e ir para casa... será certamente de alguém com berço! Tinha que parar com os devaneios e arranjar uma solução, teria tempo para choradinhos e esperneadelas quando estivesse finalmente no aconchego de minha casa. Abri a minha mala e tirei o telemóvel. Olhei assustada para o visor que não dava sinais de vida por mais que eu tentasse ligar o telemóvel. Percebi que não tinha bateria e aí soube o que sente alguém quando não tem alternativas, quando se esgotam as soluções. Tirei outro cigarro, era o último. Ali estava eu, sem tabaco, nem dinheiro, nem qualquer solução. De repente senti uma mão no meu ombro, virei-me e vi o J. Ele olhou para mim e viu a lágrima que naquele momento me escorria pelo rosto. Limpou-me a lágrima com carinho, sentou-se em frente a mim e disse-me:
-Que se passa? Porque estás aqui a chorar e nesse estado?
-Dá-me um cigarro.
-Tu sem tabaco? Agora é que não estou mesmo a perceber nada!
-Não tenho tabaco, não tenho dinheiro, nem como ir para casa! Estou encharcada e tenho fome e agora que já ouviste o discurso de coitadinha da tua ex-namorada dá-me um cigarro por favor!
Ele deu-me o cigarro e nenhum de nós disse nada. Ali estava ele, o meu ex-namorado. Quantas dores de cabeça me havia dado e o quanto eu gostei dele! Foram tantas as noites sem dormir, enquanto ele andava de bar em bar com uns e com outras. Quantas vezes eu soube das suas traições, das noitadas, das mentiras descaradas. Mas eu gostava dele e sabia que ele gostava de mim. Eu sabia que era verdade quando ele dizia que o maior sonho da sua vida era casar comigo. Mas também soube que não podia continuar com ele, precisava de paz e o J nunca teria tal coisa para me oferecer.
Subitamente ele quebra o silêncio e os meus pensamentos e diz-me:
-O teu namorado L? Onde está ele?
-Teve uns compromissos e deixou-me aqui. Preciso de ir para casa, levas-me a casa?
-Levo sim. Mas primeiro vai lavar a cara e tira esses restos de maquilhagem. Não precisas dessas coisas para nada! Quantas vezes terei que te dizer? És linda. E agora vai lá enquanto eu te peço uma tosta!
-Eu não tenho dinhei...
-Shiu! Eu estou aqui L, já não precisas de ter medo. Cheguei para cuidar de ti.
Comi a tosta, enquanto conversava com o J e me ria das suas piadas descabidas e pensava na sorte que tinha por ele estar ali. No fim levou-me a casa e eu dei-lhe um abraço, quando o soltei ele disse-me:
-Um dia vais perceber que há uma linha que separa o imbecil que eu fui contigo do imbecil que é o teu namorado. Porque eu estou aqui.
-Então fica.
-Fico?
-Fica comigo.
-Hoje? Estas com medo?
-Sempre. Eu preciso que cuidem de mim.
-Eu cuido L, eu cuido...
-Jura!
-Juro, pelos filhos que um dia vamos ter, que cuidarei sempre da mãe deles.

E uma lágrima escorreu pela minha face, desta vez não por me sentir perdida, mas por me sentir segura nos seus braços, e não nos teus, porque mesmo que um dia ele andasse por aí de bar em bar, se eu precisasse, eu sei que ele viria.
Ironias do destino? Talvez.

5 comentários:

  1. Aqui está a tal ll, "Um dia vais perceber que há uma linha que separa o imbecil que eu fui contigo do imbecil que é o teu namorado. Porque eu estou aqui." :)

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    1. demorou E, mas aí está o texto, com toda a inspiração que acumulei em tempos de espera :)

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  2. Isso foi o que eu disse também ao meu amor depois de 2 anos separados...
    -eu estou aqui!!! por que te amo onde estão eles?volta para mim ...
    -ela voltou sim...me prometeu que agora seria diferente :)

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