segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

As tuas escolhas erradas

Hoje usei o vestido que me ofereceste. Peguei nele e disse a mim mesma, vou usar a herança que me deixou aquele traste! Não é um vestido bonito, é apagado, não me favorece e em nada dá nas vistas a não ser em evidenciar o teu mau gosto. Mas mesmo assim quis usá-lo. Confesso que fui apenas passeá-lo até ao café da minha rua. O teu mau gosto não merece ser evidenciado para além do quarteirão de minha casa. Olhava para ele com atenção e percebia que não podias jamais conhecer a tua namorada, caso contrário nunca me terias oferecido um vestido que eu ia jurar que tinha sido comprado a pensar na tua mãe. Nada contra a tua mãe, mas não estou sequer perto dos quarenta, entendes? O vestido é a prova de que nunca soubeste quem eu era. Se nunca soubeste quem eu era nunca me amaste pelo que eu sou. O problema não foi só o vestido. Nunca preferi os restaurantes caros, sempre preferi poder mandar uma gargalhada sem ter que pensar na postura. Mas optas-te sempre por reservar o melhor restaurante. O que em mim te fez pensar que era isso que eu queria? O que em mim te fez pensar que eu gostava de cheiros intensos quando todos os meus perfumes eram suaves? Nunca fui essa mulher com quem tu acreditas ter namorado. Complicaste o que sempre foi simples. Des-te muito quando sempre me contentei com pouco. Namoraste com uma mulher que nunca fui, nem quis ser. Talvez por isso tenhas desistido de mim. Apaixonaste-te por uma mulher alegre, de gargalhadas puras e cheiro suave. E deste por ti a tentar agradar a uma mulher apagada, de postura intocável e perfume intenso. E enquanto passeio o vestido de regresso a casa, sinto-me leve, finalmente leve. Não fui eu quem tu decidiste abandonar, foi a essa mulher que um dia alguém te convenceu que eu era. Eu sei quem és, talvez por isso ainda te ame. Depois de tudo e apesar de tudo. E esse tudo nunca foram as tuas escolhas erradas com os vestidos, os restaurantes ou os perfumes.

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