terça-feira, 13 de novembro de 2012

Um final quase perfeito.

Chegou exactamente à hora combinada, eram oito horas da noite e a campainha tocou. Sabia que era ele, abriu a porta e pediu-lhe que entrasse. Como sempre ele estava bem-disposto, cumprimentou-a e sorriu. Quando se dirigiam para o quarto ela mantinha-se em silêncio enquanto ele ia dizendo que ela era linda vestindo qualquer coisa e que mesmo assim perdia tanto tempo a arranjar-se que acabava sempre por nunca estar pronta à hora marcada. Sentou-se na cama dela, achou estranho esta não estar repleta de roupas como habitualmente, sabia bem o quão desarrumada a sua namorada era, conseguindo transportar tudo o que tinha dentro do armário para cima da cama até conseguir escolher a roupa adequada para a ocasião. Mas, estava tão entusiasmado, que naquele momento aquilo pareceu-lhe um mero pormenor sem importância. Olhou carinhosamente para ela, com um olhar de namorado orgulhoso por tê-la a seu lado e disse:

-L, de pijama ainda? Anda lá amor, despacha-te.
-É que...
-Não, espera! Eu só te ia contar ao jantar mas não aguento mais esperar e por este andar chegamos à meia noite ao restaurante e eu tenho que...
-Que foi M? Aconteceu alguma coisa? - interrompeu L.
-Aconteceu!
-É grave? A tua mãe não está melhor? Eu posso...
-Não, não tem nada a ver com isso! A minha mãe está melhor e regressou hoje ao trabalho, conheces aquela mulher, não é uma pneumonia que a derrota!
-Que bom, fico contente, mas então o que se passa?
-Comprei duas passagens de avião.
-Duas passagens de avião? Como assim?
-Vamos a Paris meu amor! Vou-te levar a Paris! Eu sei que querias ir e já reservei o hotel, com vista para a Torre Eiffel claro e não te preocupes com nada, só precisas de fazer a mala e...
-M, eu não estou a entender... Não me falaste em Paris...
-Claro que não te falei em Paris, era surpresa meu amor. Queria ter-te contado só ao jantar, porque hoje vou levar-te ao melhor restaurante desta cidade! Mas não aguentei esperar mais para te dizer. Eu sei o quanto gostavas de conhecer Paris e por isso vamos a Paris. Quero que percebas que eu vou realizar todos os sonhos da mulher da minha vida.
-Não posso acreditar!
-Podes sim, vais finalmente conhecer la cité de l'amour!
-Não!

L deu um grito, como se estivesse assustada, como se estivesse com medo. M não conseguia compreender o que se estava a passar. Conhecera L à um ano atrás e era apaixonado por ela como poucas pessoas já se apaixonaram na vida. Comprara as passagens de avião porque sabia que L sonhava com o dia em que visitasse Paris, em que subisse à Torre Eiffel, em que conhecesse o mundo da Disney que povou a sua infância, em que passeasse pelos Campos Elísios como vira em filmes durante anos. No entanto, após ter dado a novidade, ao em vés de receber um grande abraço, de ouvir gritos de esterismo, de felicidade da sua namorada, não, viu tristeza no seu olhar, viu medo, viu culpa.

-O que se passa L?
-Nós não vamos a Paris.
-Porque estás a chorar? Porque me dizes que não vamos a Paris? O que se passa? Diz de uma vez!
-Olha para mim M, estou de pijama.
-Sim eu consigo perceber isso, só não consigo perceber é o que se passa!
-Eu estava à espera que chegasses para ter uma conversa contigo, eu nunca pretendi ir jantar fora.
-Explica-te L!
-Eu estava à espera que chegasses para termos uma conversa e não para irmos jantar fora. Acabou M, era isto que te queria dizer... (houve um enorme silêncio e M nada disse, então L continuou)
E depois tu chegaste a dizer que compraste passagens de avião e que querias realizar todos os meus sonhos, pode não ser o momento, mas quanto mais tarde pior e...
-Acabou? Como assim acabou? Porquê L?
-Porque eu não suporto mais viver a relação perfeita, eu preciso de correr riscos, preciso de ter uma vida que não vá de encontro à perfeição de relacionameno em que mergulhamos.
-Não entendo, o que querias afinal? Que te fizesse infeliz?
-Não, tu és uma pessoa incrível, mas eu não sou mulher para entrar no teu mundo de perfeição. Eu não sou a mulher a quem devas realizar todos os sonhos. Eu não suporto mais viver dentro dos limites de um namoro que pode ser invejado por todas as mulheres deste mundo mas que não é o que eu quero para mim. E os meus sonhos, deixa-me ser eu a realizá-los. Eu quero viver a minha vida fora dos dias monótonos da nossa relação, não suporto viver mais no mundo encantado que construimos.
-Eu não acredito no que acabei de ouvir. Estas a dizer que te cansaste de mim porque eu fazia tudo bem?
-Sim.
-Mas o que é que tu queres L? Que te faça infeliz? Que me esqueça de ti enquanto ando de bebedeira em bebedeira? Que te dê todo o espaço do mundo? Que te trate mal?

L olhou para M com ar de quem lamentava o que estava a acontecer e disse:

-Quero viver a minha vida longe desta história de amor com desfecho tão previsível de final feliz, é isso que eu quero, saber o que é a vida longe deste mundo encantado.


                                 Soubesse ela o quão bom teria sido viver o final perfeito.

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