terça-feira, 20 de novembro de 2012

New York, New York.

Ela estava sentada ao balcão de um bar perdido em New York, numa mão segurava o cigarro e na outra segurava o copo. Era uma mulher bonita, realmente muito bonita, devia estar na casa dos trinta anos e já a tinha visto por lá várias noites, sempre sozinha. Aproximou-se um pouco reticente e disse:

-Boa noite, posso oferecer-lhe uma bebida?

-Boa noite, aceito sim, obrigada.

-Acompanha-me até uma mesa?- perguntou ele.

Ela também já tinha reparado nele. Tinha-o visto várias vezes naquele bar, sempre acompanhado por amigos, às vezes até na companhia de casais, o que a deixava intrigada ao ver um homem que devia ter perto de cinquenta anos sem nunca ter apresentado por lá qualquer companhia feminina. E a verdade era só uma, apesar da sua idade era um homem extremamente charmoso.

-Posso perguntar-lhe como se chama?

-Maria.

-Maria? A Maria não é americana pois não?

-Porque pergunta?

-Tem um sotaque que não consigo assemelhar ao sotaque de nenhum dos nossos estados e o seu nome também não é americano.

-Sou portuguesa.

-E o que faz uma bonita portuguesa sozinha num bar de New York?

-Vivo em New York.

-Ah, é emigrante. Deixe-me adivinhar, veio atrás do «sonho americano»?

-Não sou uma mulher sonhadora, vim atrás de um emprego, vim atrás de estabilidade.

-E encontrou-a?

-A estabilidade que eu procuro não é fácil de encontrar.

-Posso então perguntar-lhe o que faz?

-Trabalho num antiquário, ou seja, vendo o que já ninguém quer comprar. A vantagem é que não tenho um emprego cansativo, e o pó fica sempre bem na montra de exposição.

-Já vi que tem um humor fantástico Maria. Mas conte-me, porquê New York?

-Faço parte de uma geração que em Portugal apelidamos de «geração à rasca», quando saí da universidade em menos de um ano já tinha feito a mala e decidido ir embora do meu país.

-Posso perguntar-lhe o que estudou na universidade?

-Direito.

-Então é uma advogada que trabalha num antiquário de New York... Acho que já percebi, a estabilidade que procura é poder vir a exercer algo relacionado com a sua profissão.

-Não, eu diria que sou uma advogada que trabalha num antiquário de New York e que sonha viver da escrita.

-Não veio atrás do american dream, a Maria veio atrás de um sonho seu. Admiro isso numa mulher jovem, veio sozinha?

-Sim.

-A sua família devia ser uma família de poucas posses, veio atrás de um sonho e ao mesmo tempo quer poder ajudá-los, acertei?

-Não propriamente, eu diria que a minha família vive bem melhor que eu. Os meus pais fazem parte de uma classe média alta e não tenho irmãos.

-Assim torna-se um pouco difícil perceber o motivo que a fez vir, compreendo a situação do seu país, mas pelos vistos não era a mesma situação da sua família.

-Vim em busca de liberdade e deparei-me com a solidão, acho que foi isso que aconteceu.

-Porque não volta?

-Se ter dinheiro implica voltar para casa dos meus pais, não obrigada.

Ele olhou para Maria e viu uma mulher completamente indecifrável à sua frente. Era sem dúvida uma mulher culta, estudada, uma mulher vivida que passava horas a fio durante a noite a escrever e escrever e escrever. Mesmo sabendo que o mais certo seria nunca ninguém chegar a ler o que tanto quis fazer chegar a um grande público de leitores. Decidiu então continuar, estava encantado com a mulher que tinha à sua frente.

-A Maria é casada ou algo do género?

-Não, nunca casei, não tenho filhos e já lhe disse que não tenho irmãos?

O àlcool começava agora a manifestar sinais exteriores em Maria.

-Sim, já. Deve ter sido muito mimada.

-Eu diria mais, devo ter sido muito pressionada! Pressionada a ser tudo aquilo que os meus pais desejavam num filho. Tive que ser bem comportada, tirar boas notas, ir para a universidade, não sair muito para não andar com más companhias...

-Já percebi o porquê de ter saído de casa dos seus pais.

-Não, não percebeu. Eu não saí só de casa dos meus pais, afastei-me da minha família, dos meus amigos e até de um antigo amor.

-Deixou um amor para trás?

-Era fraco de mais para me acompanhar. Disse que eu era uma louca e que mais tarde ou mais cedo voltaria para Portugal arrependida de algum dia ter ido embora. A verdade é que não voltei, embora não tenha feito nada pela minha vida, voltar também não faz parte das minhas opções.

-E o seu amor? Que é feito dele?

-Casou, tem filhos e todas essas coisas bonitas.

-Ainda fala nele, não o esqueceu.

-Acho que o problema é nunca ter vivido nada semelhante ao que vivi com ele. E a mágoa, a mágoa de termos feito planos durante anos. Planeávamos acabar a universidade e sair da nossa cidade, chegamos mesmo a falar em New York e de facto aqui estou eu, mas sozinha. Eu não desisto dos meus sonhos, se nunca os chegar a realizar ninguém poderá dizer que não tentei. E aquele otário ficou na santa terrinha e ainda conseguiu casar com uma antiga amiga minha. Merecem-se, são os dois uns palermas.

-Há quanto tempo não vai a Portugal?

-À tempo suficiente para os meus pais dizerem que eu sou a maior desilusão que podiam ter tido. Acho que eles pensam que tenha uma vida pouco decente por aqui. Até compreendo que tendo criado uma pessoa como eu seja difícil acreditar que estou em New York a trabalhar num antiquário e que só não vivo na companhia de um gato porque faço alergia ao seu pêlo...

A conversa prolongou-se entre drinks e cigarros. Ele tinha-a achado uma mulher encantadora, apesar de ter percebido desde a primeira conversa que mantiveram naquele bar de New York, que Maria vivia à beira de um abismo. Sairam aquela e várias noites. E querem saber o que aconteceu? Apaixonaram-se. A bonita portuguesa de trinta anos apaixonou-se pelo charmoso americano de quase cinquenta. Talvez ela tenha visto nele uma protecção e ele tenha visto nela a companhia que tanto precisava. No ano a seguir casaram, em New York. Um ano após o casamento visitaram Portugal, a família, os poucos amigos que ela mantivera. Todos ficaram admirados com o casamento de Maria, não era um casamento qualquer, era aquilo que só mais tarde ela percebera, o casamento com um dos homens mais importantes de New York. Maria deixou o antiquário e com a ajuda do marido lançou o seu primeiro livro, entitulado That's not an american dream, that's my dream.

Foi um sucesso e o seu antigo amor chegou a ler a tradução do livro em português, comprado a muito custo com o seu dinheiro contado para as despesas da casa, dos filhos e da mulher.


 

Sem comentários:

Enviar um comentário